Being Alive - Assays on Movement, Knowledge and Description (Estar Vivo - Ensaios sobre Movimento, Conhecimento e Descrição) - Tim Ingold

 

Aos estudiosos da locomoção e uso dos pés vale ver especialmente o capítulo 3…
O livro todo é para quem gosta de botar as mãos e os pés na massa enquanto pensa.
Pena que está só em Inglês, o autor, famoso na área nos últimos tempos, esteve no Brasil há uns aninhos atrás, deve ter coisa dele sendo traduzida, este livro eu não sei.

 
 

Li o capítulo 3, apesar de pontos interessantes e de acordo com o que vem sido explorado na biologia evolutiva voltada para a análise biomecânica humana, ele não se deu ao trabalho de pesquisar sobre biologia mais contemporânea. Usar Darwin, Tyler e Huxley mostra que ele não buscou ninguém da área para um diálogo, está bem desatualizado. Esta divisão entre pés e mãos não existe mais, tanto que a maior parte dos estudos apontam que o que nos diferencia enquanto espécie é a corrida bípede e não a capacidade de manuseio refinado com as mãos, as últimas adaptações biomecânicas vieram da corrida.
Se liga: www.youtube.com/watch?v=OtQhybh4zug

 
 

Mas é interessante notar como o foco na postura bípede é uma concepção culturalmente determinada pela vida urbana ocidental, a divisão entre corpo e mente, a concepção de que a história se faz com as mãos e a pré-história com os pés… Será que essas pesquisas atuais não estariam sendo influenciadas pela cultura européia desses cientistas de sapatos? Como fica a capacidade de manuseio refinado com os pés? Não estaria ainda de pé o mesmo ideal de pré-história bípede de Darwin e Huxley?

 
 

Me parece que tu tá reafirmando o que o cara escreveu sem ver se bate com o que está sendo discutido na bioantropologia.
Um outro vídeo do Lieberman: www.youtube.com/watch?v=7jrnj-7YKZE

Me parece que o Tim Ingold chupinhou coisas dos estudos bioantropológicos recentes e jogou num texto de antropologia cultural sem dar os créditos devidos. Pés e cócoras num mesmo artigo … hmmmm, desconfio muito de que não tenha tido esta sacada por conta própria.
E na boa, Ingold com certeza usa muito mais sapato do que o Lieberman.

O difícil de fazer a ponte entre as duas áreas é que nenhuma delas se dá ao trabalho de se debruçar sobre os estudos da outra para criar um diálogo, e estou sempre neste fogo cruzado. Mas acho que é isso mesmo, cada um no seu quadrado.

 
 
POSTURA IDEAL: SERÁ QUE EXISTE?

Ter uma aparência jovem saudável, garantida pela imagem e pelo sentimento de um corpo forte, ágil, resistente e belo são valores presentes na cultura atual. Certamente a boa postura se encaixaria como um dos parâmetros neste conjunto de valores.

Leia no blog: www.cursofba.com/?p=1331

Uma “postura ideal” seria também um dos requisitos que tem ganhado destaque quando o tema é a prevenção, manutenção ou a recuperação da saúde e do bem estar corporal. Hospitais, escolas e clínicas usam programas de educação da postural embasados num paradigma estrutural e biomédico, a fim de ensinar “posturas corretas” que tratariam ou evitariam problemas musculoesqueléticos.

Contudo como entender o que realmente é uma postura adequada?

Os discursos sobre a boa postura são freqüentemente permeados por ideais estéticos e morais do posicionamento do corpo, indicando, na maioria das vezes, uma preocupação primeira com a aparência corporal. Postura saudável e belo porte confundem-se nos discursos sobre a postura e tornam-se quase sinônimos. Mas de onde surgiu esse raciocínio?

Sabe-se que a postura militar era reconhecida, por muito tempo, como protótipo de boa postura. Se embasava numa disciplina corporal rigorosa, da qual fazia parte o “bom” alinhamento dos segmentos corporais (segundo a própria visão). A postura era, então, treinada para apresentar as seguintes características: cabeça alta e ereta, costas retas, ventre encolhido e peito saliente.

Para averiguação do alinhamento postural, sugere-se uma avaliação através no qual se observa o posicionamento de pontos de referencia anatômica em relação à linha de um fio de prumo. Porém, alguns autores discordam do fio de prumo como avaliação postural. Para estes, a postura idealmente vertical não é natural, sendo necessário solicitá-la, o que determina esforço consciente e aumento acentuado da atividade muscular. Alguns defendem, assim, que o parâmetro de uma postura ereta normal deve ser o relaxamento e o conforto corporal, em vez de um modelo pré-determinado de alinhamento corporal. E poderia acrescentar que a ausência de problemas musculoesqueléticos e a mobilidade sejam parâmetros a serem levados em conta.

A hipótese proposta pela FBA é que ao se considerar apenas o ser humano que vive na cultura ocidental contemporânea como parâmetro, e como amostra, para se estabelecer o que seria uma postura normal, sem conhecer o processo de seleção natural da postura bípede no ambiente de savana por dois milhões de anos, seria uma visão incompleta.

Deste modo, mais uma vez sugerimos um passo para trás. É necessário entender de biologia básica evolutiva e das características que moldaram a postura bípede antes de propor um parâmetro ou uma metodologia de avaliação. Uma alternativa seria estudar a postura de povos caçadores-coletores atuais (o mais rico elo de ligação com nosso passado) para descobrir um “padrão postural ideal”, se é que isso realmente existe.

Ao estudar biomecânica através do prisma evolutivo, descobre-se que determinadas estruturas no corpo humano só fazem sentido no movimento. A postura dita “estática” é basicamente um movimento de transição e se utiliza das estruturas dinâmicas.

Isso gera mais uma pergunta: será que a imagem do corpo em perfeito alinhamento, constante na história ocidental e por conseguinte nas propostas fisioterapêuticas teria menos importância do que se acredita?

Por Pablo Santurbano e Bruno Montoro

REFERÊNCIAS

- Chung TM. Escola da postura: experiência do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Acta Fisiátrica, São Paulo; 3(2):13-17, 1996.
- Henrotin Y et al. définicion, Critères de Qualité et Evaluation d’un Programme de Type École du Dos. Rev. Thum, Paris, 68:185-191, 2001.
- Kendall, F. P., McCreary, E. K.; Provance, P. G. Músculos: provas e funções. 4.ed. São Paulo: Manole, 1995.
- Lieberman, D. The Story of the human body. Evolution, health and disease. Pantheon Books. 2013.
- Vieira A, Souza JL. Verticalidade é sinônimo de boa postura? Movimento – Ano V – Nº 10 – 1999/1
- Foucault M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 14.ed. Petrópoíis: Vozes, 1987.
- Smith, L. K.; Weiss, E. L.; Lehmkuhl, L . D . Cinesiologia clínica de Brunnstrom. 5.ed. São Paulo: Manole, 1997.
- Vieira A, Souza JL. A moralidade implícita no ideal de verticalidade da postura corporal. Rev. Bras. Cienc. Esporte, Campinas, v. 23, n. 3, p. 133-148, maio, 2002
- Vieira A, Souza JL. Boa postura: uma preocupação com a estética, a moral ou a saúde? Movimento, Porto Alegre; 15(1):145-165, 2009.
- Souza JL. Efeitos de uma escola postural para indivíduos com dores nas costas. Movimento, Porto Alegre, 5:56-71, 1996.
- Vigarello G. Le corps redressé: histoire d’un pouvoir pédagogique. Paris: Jean-Pierra Delarge, 1978. In: Vieira A, Souza JL. Boa postura: uma preocupação com a estética, a moral ou a saúde? Movimento, Porto Alegre; 15(1):145-165, 2009.

 
 

Salve, Idiota! Essa questão das cócoras não acho que ele tenha chupinhado, é um assunto falado entre alguns humanistas. O Tim Ingold estuda antropologicamente coisas como a caminhada e técnicas diversas (que ele realmente experimenta, vide o texto sobre o uso do serrote) faz tempo, tem jeitão de cientista maluco e deve ter vivido algum momento hippie e andado descalso (vai saber?). Mas certamente não está antenado no debate da biologia atual. Mano, desculpa aí, não tenho muita paciência para vídeos, mas o texto da FBA eu li e comento:
Mauss já falava das técnicas militares, Ingold retoma no texto. O que dizem vai ao encontro do que a FBA está dizendo em termos de crítica de um certo modelo de postura ereta. Só duvido que algum deles acreditaria na existência de uma postura “normal” para todo e qualquer cerumano. O texto do Ingold é uma crítica a isto: não somente do modelo ocidental/militar mas de qualquer um. Com eles eu discordo em desta parte da afirmação: “a postura de povos caçadores-coletores atuais (o mais rico elo de ligação com nosso passado) para descobrir um “padrão postural ideal””, e fico com a segunda parte: “se é que isso realmente existe.” Enfim, a sugestão de pesquisa antropológica e biológica coligadas é sim um desafio interessante e vale a pena ser feito, inclusive para testar essa hipótese sobre “caçadores-coletores”, ainda que o termo em si seja bastante problemático. Bora trombar os Xavante?

 
 

vou ir trombar os xavantes sim!

Só explicando melhor a questão de postura da FBA:
O uso do termo postura é necessário mas o que a galera quer dizer tem sempre a ver com modelo de movimentação e não modelo estático. Entre as posturas do GDS por exemplo, o que se classifica como postura ideal seria a postura de “Auto-crescimento” pois existe um equilíbrio das massas (gerando um equilíbrio músculo-esquelético sem gerar danos), e é a postura que melhor possibilitaria uma mobilidade imediata (a partir da posição o corpo pode assumir de forma pronta diversas posições). Avaliação de postura é muito limitado, porém pode evidenciar que cadeia está sendo sobrecarregada e qual não está sendo usada, e isso sempre vai eclodir em problemas músculo-esqueléticos (é uma questão de correlação de evidências).

O foco é encontrar padrões de mobilidade, a análise músculo esquelética passa pela análise do movimento e não só pela postura. Por isso eles colocam “se é que isso realmente existe”, pois estão pensando e pesquisando sobre o assunto. Eu acho que a análise postural ajuda a encontrar alguns problemas biomecânicos mais evidentes mas é só pra isso mesmo, o resto passa pelo movimento. E é aí que o bicho pega, pois a nossa estrutura músculo esquelética e sua saúde dependem de movimentos … músculos e ossos não foram criados pra manter o cérebro no alto, eles possuem funções específicas e estão integradas com um sistema vivo todo (pt.wikipedia.org/wiki/Tensegridade). Talvez falte um bate-papo multidisciplinar direto com o pessoal da FBA. Em agosto o truta da corrida ancestral vai estar na Casa, bora bater um papo com ele e tentar arredondar as ideias dos dois lados? Quem sabe não surge até uma linha de pesquisa diferente pro seu lado?

 
 

Opa, bate papo com o cara da Corrida Ancestral, sim!
Então, acho que estamos falando coisas parecidas com outros termos, quando eu disse da crítica à postura ereta militar eu não estava pensando postura simplesmente como algo “parado”. E o Ingold também tem o foco no movimento, inclusive a partir da leitura dele eu comecei a pensar num perspectivismo pedestre, já que o conhecimento se dá pelo movimento, não por um ponto de vista estático.

 
   

O livro está em tradução. Sai em 2015-2, pela coleção de antropologia da Vozes.