Ação Direta, Voltairine de Cleyre

texto da anarquista individualista Voltairine sobre a ação direta, a ser editada pela Herétika

Índice

se puderem ajudar a arrumar, n consegui…

Biografia (mala) feito!
Ação Direta, Voltairine de Cleyre (sapatonx)
Ação Direta, o que é , para que serve (ta ok mas se quiserem ler e ver se tem linguagem neutra do x pra ser corrigida…)
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Biografia

Voltairine De Cleyre (1866-1912) foi uma anarquista estadunidense teórica, escritora, agitadora política e contemporânea de Emma Goldman. Foi ativa durante a Revolta de Haymarket, levante proletário na cidade de Chicago nos EUA, considerado uma das origens do 1º de Maio, o dia internacional da luta dos trabalhadores. Foi considerada por camaradas da época como “A pérola negra da literatura anarquista”, e inclusive aclamada pela própria Emma Goldman, embora Voltairine preferiu sempre ficar na periferia da principal corrente do anarquismo estadunidense e declarou, por exemplo em um de seus ensaios: “A Senhora Goldman é comunista e eu sou individualista. Ela deseja abolir o direito à propriedade, enquanto eu desejo mantê-lo”. Desta maneira Voltairine se posiciona na cena norte-americana.

Sempre tratou de abordar todos os temas que são próprios das relações humanas com um grande espírito crítico e posturas radicalizadas. Como por exemplo afirmou em um de seus escritos falando do amor: "Cada indivíduo deve ter uma habitação ou habitações para si mesmo exclusivamente“, ela escreveu a sua mãe, “para nunca submeter-se às familiaridades intrusas de nossa presente ‘vida familiar’… Para mim qualquer dependência, qualquer coisa que destrua o completo egoísmo do indivíduo, está na linha da escravidão e destrói a pura espontaneidade do amor.”

Entre sua vasta produção de ensaios, se encontra um dos últimos que escreveu, que é do ano 1912, exatamente há 100 anos da atualidade e cuja vigência prosperará provavelmente até que cesse a dominação e a opressão sobre a face da Terra. Este foi intitulado Ação Direta, e é uma peça fundamental da propaganda pelo ato anarquista, que consiste em ir além das palavras e acionar diretamente sobre nossas vidas, sem mediações. O próprio Kropotkin declarou que “Um ato pode, em uns poucos dias, fazer mais propaganda que mil panfletos”. Um exemplo no Brasil foram as jornadas de 2013, nas revoltas de rua contra o aumento das tarifas, onde foi empregada a tática Black Bloc, que além de autodefesa das marchas, consiste em ataques à símbolos do Capitalismo. Essas ações violentas simbólicas despertam e urgem a raiva dos trabalhadores que se espelham na insurgência, em um efeito contaminante, despertando que qualquer pessoa pode tomar os meios em mãos para reagir à opressão capitalista. E Voltairine sustenta que: "Cada pessoa que alguma vez haja pensado que tinha o direito a expressar-se, e valentemente tivesse procedido em fazê-lo, solitariamente ou junto a outras pessoas que compartilhassem de suas convicçõess, foi até então um praticante da Ação Direta, entendendo por “expressar-se” como toda forma de tomada de ação" Como ela tambiém afirma que “Hoje há opressão na Terra, e não apenas nesta terra, senão que em todos os cantos do mundo que desfrutam dos tão enganosos ganhos da Civilização”.

Voltairine distingue entre a ação direta e a ação indireta, ou ação política. A Ação Política se refere ao ato de deixar a decisão de nossas vidas a políticos, empresários e chefes sindicais, os quais apenas lograrão reformas intermediárias e momentâneas em nossas vidas, mas sem uma ideia de auto-determinação absoluta do destino de cada indivíduo. Esta última se conseguirá por meio da ação direta. E assim o explica: ‘"Todas essas organizações foram formadas com o propósito de tentar arrancar dos amos do campo econômico um salário um pouco melhor, umas condições um pouco melhores (…) Nenhuma delas tentou alcançar uma solução final para a guerra social. Nenhuma delas (…) reconheceu que existe uma guerra social, inevitável enquanto as presentes condições legais e sociais persistam. Aceitaram as instituições da propriedade tais e como as encontraram". De igual maneira trata Voltairine de justificar a prática da ação direta violenta dizendo: “As pessoas em geral compreendem que fazem essas coisas pela dura lógica de uma situação que eles não criaram, senão que os obriga a fazer esses ataques em função de vencer em sua luta por viver ou sucumbir no poço sem fundo do descenso à pobreza, que faz com que a Morte os encontre no hospital de pobres, nas ruas da cidade, ou nas águas sujas do rio. Esta é a terrível alternativa que a classe trabalhadora enfrenta, e isso é o que faz com que os seres humanos de disposição mais amável (…) façam uso da violência contra seus congêneres”.

Assim, ela busca vislumbrar os males da ação política (indireta) sobre nossas vidas dizendo: “Mas o dano de absolutizar a fé na ação indirecta é muito maior que qualquer desses resultados menores. O mal principal é que destrói a iniciativa, afoga o espírito individual de rebelião, ensina as pessoas a depender de que outros façam por elas o que elas deveriam fazer por si mesmas (…).” A forma mais visível de delegar o transcurso de nossas vidas à dirigência é por meio do voto, sobre o qual diz: “Devem aprender que seu poder não reside em sua capacidade eleitoral, que seu poder reside em sua capacidade de parar a produção.” E desta maneira incita à Greve Geral como ruptura, como forma de agir diretamente sobre as decisões de nossa vida e nosso entorno imediato".

Por último no ensaio “Ação Direta” ela faz um chamado ao despertar das consciências das individualidades que sustentam o sistema social da produção de bens de consumo, dizendo: “que toda a estrutura social descanse sobre os trabalhadores, que todas as possessões dos outros não valem absolutamente nada sem a atividade dos trabalhadores, que tais manifestações, como as greves, são inerentes ao sistema de propriedade e continuamente recorrentes até que todo o sistema seja abolido (e tendo demonstrado isso na prática, proceder a expropriar.”

Finalmente afirma que “Enquanto isso, até esse despertar mundial, a guerra continuará como até hoje, apesar de toda a histeria que possam manifestar a gente bem intencionada que não entende a vida e suas necessidades (…):” Todos os exemplos que Voltairine expôe neste ensaio são próprios de um contexto histórico determinado (Estados Unidos no começo do século XX) e com uma temática determinada (o trabalho assalariado). Mas a ideia de atuar diretamente sobre nossas vidas é um chamados essencial a toda ordem de nossa cotidianidade, a nossas relações interpessoais e com nosso entorno. É fundamental para a propaganda mas também para o livre arbítrio da individualidade no momento de tomar decisões de toda índole. É a posta em prática de nossa própria vida. Por isso mesmo é que esse escrito é palavra viva e continua em vigência cem anos depois de ter sido concebido, e o será até que cada ser humano se autodetermine no caminho de sua própria existência.

Isso afirma a delícia da rebeldia de Voltairine, sua firmeza e suas práticas. Seus ditos são ação em si mesmos. Como disse um de seus companheiros de Chicago, Jay Fox, no momento em que Voltairine morreu: “Ela deixou o cenário mas sua memória persistirá longamente. Como a fragância de una rosa elegante amassada em plena floração, (seu legado será) como o rastro de um grande pensamento lampejado na mente”.

Nós da coletiva editorial Herétika desejamos oferecer a vocês a leitura do ensaio Ação Direta, acreditando que a Lesbianidade é em si uma ação direta contra a supremacia masculina, realizada em nossas próprias vidas, por meio da ruptura com os opressores. Também acreditando que as contribuições desse pensar podem levar a radicalização e autonomia de nossos movimentos, bastante capturados que estão pelas tramas da institucionalidade e reformismos que minam sua potência revolucionária em troca de uns poucos reformismos estatais, migalhas do poder dos homens, e a falácia da representatividade.

Boa leitura rebelde!

Herétika, coletivo autopublicador sapatão.
Baseado e adaptado de matéria na publicação anarquista argentina “Exquisita Rebeldía”, número 1, primavera de 2012. Era um jornal anarquista redigido unicamente por minas lésbicas.

Ação Direta, Voltairine de Cleyre

Do ponto de vista daquele que se julga capaz de discernir uma rota constante para o progresso humano, e segue por ela, e desenha tal rota no mapa de sua mente, certamente resolverá indicá-la aos outros; fazê-los ver as coisas como ele vê; convencê-los com argumentos claros e simples que expressem seus pensamentos – diante disso é um sinal de pesar e de confusão de espírito o fato da frase «Ação Direta» adquirir de repente na mente das pessoas em geral um significado circunscrito, que não tem, e que certamente nunca teve, nem mesmo no pensamento de seus adeptos.

Porém, essa é mais uma ironia que o Progresso lança naqueles que se julgam capazes de fixar metas e lutar por alcançá-las. Inúmeras vezes, nomes, frases, lemas, divisas, palavras de ordem, são viradas ao avesso, colocadas de cabeça para baixo. Como uma percepção tardia do que deveria ser feito tornam-se tendenciosas. Pessoas usam e abusam de expressões com sentido dado por eles mesmos; e ainda, outros tenazmente permanecem firmes, teimam ser ouvidos, para finalmente concluir que o período de mal entendido e de preconceito foi mais um prelúdio de investigação do que de compreensão.

Certamente este é o caso da presente concepção errônea do termo Ação Direta que pelo equívoco, ou mesmo pelo deliberado embuste perpetrado por certos jornalistas de Los Angeles, por ocasião da condenação de McNamara, cismaram em colocar na cabeça das pessoas que Ação Direta significa, «atacar violentamente a vida e a propriedade». Esta atitude ignorante ou desonesta por parte desses profissionais provocou em muita gente a curiosidade de saber o que realmente significava Ação Direta.

De fato, aqueles que assim tão vigorosa e desordenadamente a condenam, se olharem para eles mesmos descobrirão que eles próprios em muitas ocasiões praticaram a ação direta, e farão isso novamente.

Qualquer um que sempre pensou por si próprio, que usou seu direito de livre expressão, e corajosamente reafirmou isto juntamente com outros que compartilham de suas convicções, foi um praticante da ação direta. Uns trinta anos atrás eu recordo que o Exército de Salvação era um vigoroso praticante da ação direta na defesa da liberdade de seus membros para falar, reunir e discursar. Muitos foram presos, multados e encarcerados; mas eles continuaram exercendo seu direito de cantar, pregar e marchar, e de tal forma que seus perseguidores acabaram finalmente por deixá-los em paz. Os trabalhadores nas indústrias estão ministrando a mesma luta agora, e tem, em vários casos, compelido seus patrões a deixá-los em paz pelas mesmas táticas diretas.

Toda pessoa que planejou fazer qualquer coisa, e foi e fez, ou pôs seu plano em execução antes de outros, e ganhou a cooperação e colaboração de outras pessoas, sem apelar para autoridades, pedir licença ou agradá-los, foi um praticante da ação direta.

Todas as experiências de cooperação são essencialmente ação direta. Todo indivíduo que em sua vida teve uma diferença com qualquer outra pessoa, e diretamente procurou outras pessoas para envolvê-las na luta, através de um plano pacífico ou não, colocou a ação direta em prática. Greves e boicotes são exemplos de tal ação; muitas pessoas ainda lembram da ação das donas de casa de New York que boicotaram os açougueiros, o que acabou provocando a queda do preço da carne; ou do boicote à manteiga, como uma resposta direta aos fabricantes de manteiga.

Estas ações geralmente não são levadas a efeito simplesmente por causa de argumentos de um ou de outro, ou em função de leis, mas é a resposta espontânea daqueles que estão oprimidos por uma situação. Em outras palavras, todas as pessoas acreditam, quase sempre, no princípio da ação direta e a praticam.

Porém, a maioria das pessoas também é ativista indireto ou político. E eles são ao mesmo tempo ambas estas coisas. Há, todavia, um número limitado de pessoas que evitam a ação política sob quaisquer circunstâncias; mas não há ninguém, nenhuma pessoa, que jamais praticou alguma forma de ação direta. A maioria dos intelectuais tendem ao oportunismo e ao apoio, alguns mais à direita, outros mais à esquerda, mas sempre prontos para usar quaisquer meios quando chegar o momento. Quer dizer, há aqueles que creem que colocar governantes no poder é essencialmente uma coisa errada e tola; mas que, diante da tensão de determinadas circunstâncias, passam a considerar isto como uma coisa sábia a fazer, e acabam votando em algum indivíduo naquele momento em particular. Há, também, aqueles que acreditam que, em geral, o modo mais sábio para as pessoas adquirirem o que querem está no método indireto da votação. Uma vez no poder os eleitos farão leis favoráveis; ainda que, mais adiante, no mesmo documento coloque uma greve ocasionalmente debaixo de condições excepcionais; e uma greve, como eu disse, é ação direta. Eles podem também fazer como os agitadores do Partido Socialista (que estão declinando, nos últimos tempos, para uma postura contrária à ação direta) fizeram no verão passado, quando chamaram a polícia para dar segurança às suas reuniões.

Quem são esses que, pela essência das suas convicções, são os praticantes da Ação Direta? Por que não adotam uma postura conformista? Porque alguns não acreditam em não-violência? Agora, não cometa o engano de confundir ação direta com conformismo. A Ação direta pode ser extremamente violenta, ou tão calma quanto as suaves águas dos rios de planície. O que quero dizer é que o real conformismo ocorre sempre pela ação política, nunca pela ação direta. Do ponto de vista da ação toda política é coerção; até mesmo quando o Estado faz coisas boas o faz através do exercício do poder, e isto se aplica também a um clube, uma arma, ou uma prisão.

Logo após a chegada dos Quakers em Massachusetts, os Puritanos os acusaram de «aborrecer todo mundo com seus discursos». Os Quakers não aceitavam jurar submissão a governo algum e nem admitiam que sua igreja pagasse impostos. (Fazendo essas coisas eles eram praticantes da ação direta, coisa que poderíamos chamar de ação direta negativa.) Assim, os Puritanos, sendo ativistas políticos, aprovavam leis para excluir, deportar, multar, encarcerar, mutilar, e finalmente, até mesmo para enforcar os Quakers. Todavia, os Quakers continuaram praticando suas ideias (que era ação direta positiva); há registros na história que depois de enforcarem quatro Quakers e de arrastarem Margaret Brewster presa ao para-choques de um carro pelas ruas de Boston, «os Puritanos desistiram de tentar silenciar os missionários; a persistência e não-violência quase acabou prevalecendo».

Outro exemplo de ação direta no começo da história colonial, desta vez de nenhuma forma pacífica, foi o evento conhecido como a Rebelião de Bacon. Todos nossos historiadores certamente defendem a ação dos rebeldes naquela ocasião, porque os rebeldes estavam certos. Mesmo no caso da ação direta violenta contra a autoridade legalmente constituída. Para o bem daqueles que esqueceram dos detalhes, vamos lembrar brevemente que os plantadores de Virgínia estavam com medo de um ataque geral pelos índios; e com razão. Adeptos da ação política, reivindicaram que o governo reconhecesse Bacon como líder deles, ou permitisse a convocação de voluntários para a autodefesa. O governador temeu que uma companhia de homens armados constituísse uma ameaça para ele; também com razão. Ele recusou a convocação. Ao que os plantadores responderam com a ação direta. Eles recrutaram voluntários sem a autorização governamental, e com sucesso se defenderam dos índios. O governador declarou Bacon traidor; mas por sua popularidade, o governador temeu agir contra ele. Finalmente, porém, as coisas foram tão longe que Jamestown acabou incendiada pelos rebeldes; e se não fosse pela morte intempestiva de Bacon, muito mais poderia ter ocorrido. Claro que a reação foi bem terrível, o que normalmente acontece quando uma rebelião desmorona ou é esmagada. Até mesmo durante seu breve período de sucesso, os rebeldes sofreram muitos abusos. Eu estou bem segura que os defensores da ação-política do “custe o que custar”, depois que a reação retomou o poder, deve ter dito: «Veja quantos males a ação direta nos traz! Veja como o progresso da colônia regrediu em vinte e cinco anos»; esquecendo que se os colonos não recorressem à ação direta, seus couros cabeludos teriam sido levados pelos índios no ano anterior, embora alguns deles acabassem enforcados pelo governador no ano seguinte.

Nos períodos de agitação e excitação que precedem às revoluções, há todo tipo de ação direta, da mais pacífica à mais violenta; quase todos estudantes acham, por conta destes desempenhos, que é exatamente aí que se situa o que há de mais interessante da história dos Estados Unidos e o que mais facilmente grava na memória.

Entre os movimentos pacíficos, destaca-se os acordos de não importação, as ligas das indústrias de tecidos e os «comitês de correspondência». A ação direta violenta acabou por se desenvolver em função do inevitável crescimento da hostilidade; exemplos clássicos foram o caso da destruição das rendas estampadas e a ação relativa aos navios carregados de chá, que quando não eram proibidos de descarregar, os descarregavam em armazéns úmidos ou no chão do porto, como ocorria em Boston. Em Annapolis obrigavam os donos dos navios de chá a incendiar suas próprias embarcações. Todas estas ações estão registradas em nossos livros escolares, não de modo condenatório, não de modo apologético 1, são todos casos de ação direta contra autoridades legalmente constituídas e contra a propriedade de bens. Menciono estes e outros casos semelhantes para provar que a ação direta sempre foi usada, e tem a sanção histórica dos mesmos que hoje a reprovam.

Todo mundo sabe que George Washington foi o líder da liga de não-importação dos plantadores da Virgínia; se George Washington fosse escolhido hoje como líder de uma liga de agricultores da Virgínia para a não-importação; provavelmente seria levado às barras dos tribunais pela formação de tal liga; e se ele persistisse, seria multado e processado.

Quando a grande disputa entre o Norte e o Sul estava em ebulição, foi novamente a ação direta que precedeu e precipitou as ações políticas. Sem a ação direta tais ações políticas jamais entrariam em cena, e nem mesmo seriam contempladas. As mentes dormentes precisaram primeiramente serem despertas por atos diretos de protesto contra as condições existentes.

A história do movimento anti-escravidão e a Guerra Civil é um dos maiores paradoxos da história, embora a história seja uma cadeia de paradoxos. Politicamente falando, os Estados que possuíam maior liberdade política eram aqueles que continham propriedades escravistas, cada Estado era autônomo diante da interferência dos Estados Unidos; politicamente falando, os Estados sem propriedades escravistas apoiavam um forte governo centralizado que, conforme os Secessionistas disseram, e com razão, tendia ao desenvolvimento de formas ainda mais tirânicas. O que veio acontecer mais tarde. No fim da Guerra Civil houve uma invasão ininterrupta do poder federal em áreas antigamente restritas aos Estados. Os escravos- assalariados, em suas lutas de hoje, estão em contínuo conflito com esse poder centralizado contra o qual os proprietários de escravos protestaram (com liberdade nos lábios, e tirania nos corações). Eticamente falando, os Estados com propriedades não escravistas, de um modo geral, representaram maior liberdade humana, ao passo que os Secessionistas representaram o escravagismo, o preconceito e a intolerância racial. Mas apenas em termos gerais; quer dizer, a maioria de nortistas, desacostumados com a presença real de negros escravos entre eles, provavelmente julgavam a escravidão um erro; mas nunca tiveram nenhuma grande ânsia por aboli-la. Apenas e tão somente os Abolicionistas, e eles eram relativamente poucos, foram eticamente genuínos. Para eles, a escravidão – não a secessão ou a união – era a questão principal. Na realidade, estavam tão convencidos disso que um número considerável deles eram favoráveis à dissolução da união, ao mesmo tempo em que defendiam a iniciativa Nortistas na questão da dissolução, para que o povo nortista pudesse livrar-se da culpa de manter negros em cadeias.

Naturalmente, houve todo tipo de gente com todo tipo de temperamento entre os defensores da abolição da escravidão. Houve Quakers como Whittier (realmente adepto do sistema paz – custe – o – que -custar da filosofia Quaker, favorável à abolição desde os primeiros dias da colonização); houve ativistas políticos moderados favoráveis à compra de escravos como forma mais barata de libertá-los; e houve pessoas extremamente violentas que acreditavam e fizeram todo tipo de coisas violentas.

Sobre o que os políticos fizeram, há um longo registro de «coisas-que-não-se-deve-fazer», um registro de trinta anos de compromissos, pechinchas, tentativas de manter o status quo, acalmar ambos os lados quando as novas condições exigiam que algo fosse feito, ou fingir fazer algo. Mas «as estrelas em seu curso lutaram contra Sisera»; o sistema estava demolindo por dentro, foram os adeptos da ação direta que ampliaram tais fissuras tornando-as visíveis.

Entre as várias expressões da rebelião direta estavam as «organizações secretas». A maioria das pessoas que pertenceram a tais grupos acreditavam em ambos tipos de ação; mas por mais que subscrevessem teoricamente o direito de maioria de agir e obrigar cumprimento de leis, eles não chegavam a este ponto na prática. Meu avô foi membro de uma «organização secreta»; ele ajudou muitos escravos fugirem para o Canadá. Ele era um homem muito paciente, obediente à lei em muitos aspectos, entretanto freqüentemente achava que ele a respeitava por ser uma coisa distante; ele sempre conduziu uma vida pioneira, e a lei geralmente estava longe dele, enquanto que a ação direta sempre foi um imperativo. Seja como for, por mais que respeitasse as leis, ele nunca teve nenhum respeito por leis escravagistas, não importava se tais leis foram aprovadas por uma maioria de dez contra um; ele conscientemente quebrava cada uma que atrapalhasse sua caminhada.

Houve tempos em que as operações «secretas» exigiram a violência, e fizeram uso dela. Lembro-me de uma velha amiga descrevendo como ela e sua mãe ficaram acordadas durante toda a noite escondendo um escravo fugido no porão da casa onde moravam; embora fossem descendentes e simpatizantes de Quakers, havia uma espingarda na mesa. Felizmente não precisaram fazer uso dela naquela noite.

Enquanto a lei do escravo fugitivo era aprovada com a ajuda de ativistas políticos do Norte no intuito de oferecer um novo calmante aos proprietários de escravos, os ativistas diretos resgatavam fugitivos recapturados. Havia vários grupos: «Resgate de Shadrach», «Resgate de Jerry», mais tarde vieram outros conduzidos pelo famoso Gerrit Smith; que teve mais sucesso do que fracasso em suas tentativas. Enquanto os politicos continuavam vagando e tentando
abrandar as coisas, os Abolicionistas eram denunciados e depreciados por pacificadores ultra -extremistas, quase da mesma forma como Wm. D. Haywood e Frank Bohn são denunciados hoje pelos seus próprios correligionários.

Outro dia li um comunicado no Chicago Daily Socialist do secretário local do Partido Socialista de Louisville, dirigido ao secretário nacional, pedindo algum outro orador seguro e sensato no lugar de Bohn, anunciado para falar. Explicando o motivo, o Sr. Dobbs mencionou a conferência de Bohn: Se os McNamaras tivessem, «êxito defendendo os interesses do proletariado, eles estariam certos, da mesma maneira que John Brown estaria certo, se tivesse êxito libertando os escravos. A ignorância foi o único crime de John Brown, e a ignorância é o único crime dos McNamaras».

O comentário do Sr. Dobbs continua: «Defendemos enfaticamente o que aqui declaramos. A tentativa de traçar um paralelo entre a — mesmo errônea — revolta de John Brown, e os métodos secretos e assassinos dos McNamaras, é não apenas indicativo de raciocínio superficial, como também algo altamente danoso pelas conclusões lógicas que podem ser tiradas de tais declarações».

Evidentemente Mr.Dobbs sabe muito pouco sobre a vida e o trabalho de John Brown. John Brown foi um homem adepto da violência; ele desprezaria qualquer pessoa tentasse fazê-lo agir de uma maneira diferente. Quando alguém acredita na violência, a única coisa que o interessa é encontrar a maneira mais efetiva de aplicá-la, que só pode ser determinada pelo conhecimento das condições e meios que possui. John Brown nunca temeu métodos conspirativos. Aqueles que leram a autobiografia de Frederick Douglas e as Reminiscências de Lucy Colman, lembram que um dos planos conduzidos por John Brown era organizar uma rede de acampamentos armados nas montanhas de West Virginia, Carolina do Norte, e Tennessee, enviar emissários secretos entre os escravos para incitá -los a fugir para estes acampamentos, e com o tempo criar as condições para despertar uma futura revolta entre o negros. Se este plano falhou foi devido à fraqueza do desejo por liberdade entre os escravos, mais do que qualquer outra coisa.

Mais tarde, quando os políticos em suas infinitas divergências inventaram uma nova proposição de como -não-fazer-nada, conhecida como Kansas-Nebraska Act que deixou a questão da escravidão ser determinada pelos colonos, os ativistas diretos de ambos os lados enviaram falsos colonos aos territórios, que começaram a lutar entre si. Os homens pró -escravidão que chegaram primeiro fizeram uma constituição que reconhecia a escravidão e uma lei que castigava com morte qualquer um que ajudasse um escravo a escapar; mas os Free Soilers, que estavam um pouco mais longe, por serem oriundos de Estados mais distantes, fizeram uma segunda constituição, e recusaram reconhecer as leis do outro partido. E John Brown lá estava, envolvido com todo tipo de violência, conspirativa ou aberta; ele foi «um ladrão de cavalos e assassino», aos olhos de ativistas decentes, pacíficos, políticos. Ninguém duvida que ele roubou cavalos, nem enviava comunicados sobre sua intenção de roubá-los. Ele também matou homens favoráveis à escravidão. Ele atacou e escapou muitas vezes antes de ser finalmente detido em Harper’s Ferry. Se ele não usava dinamite, era porque dinamite ainda não estava em voga como uma
arma prática. Ele fez mais ataques intencionais em sua vida do que os dois condenados irmãos Secretários Dobbs poderiam fazer com seus «métodos assassinos». E história compreende John Brown. A humanidade sabe que ele foi um homem violento, com sangue humano nas mãos, que foi culpado de alta traição, e enforcado por causa disso, contudo foi uma grande, forte, e desinteressada alma, incapaz de suportar o crime assustador que manteve 4.000.000 de pessoas como bestas estúpidas, e acreditava que fazer guerra contra isto era algo sagrado, um dever determinado por Deus, (John Brown era um homem muito religioso – um presbiteriano).

• devido e por causa da ação direta dos precursores da mudança social, sejam eles de natureza pacífica ou bélica, que a Consciência Humana, a consciência da massa, desperta para a necessidade de mudança. Seria muito estúpido dizer que não se pode esperar nenhum resultado positivo da ação política; às vezes coisas boas ocorrem por esse modo. Mas nunca até que a rebelião individual, seguida pela rebelião da massa, forçe isto. A ação direta sempre é o clarim, o ponto de partida, pelo qual a grande soma de indiferentes se dá conta de que a opressão chegou a um nível intolerável.

Nós temos agora e opressão na terra – e não apenas na terra, mas ao longo de qualquer região do mundo que desfrute as muitas promíscuas bênçãos da Civilização. E da mesma maneira que na questão da escravidão dos negros, outras formas de escravidão tem gerado ação direta e ação política. Um certo percentual de nossa população (provavelmente um percentual bem menor que aqueles que os políticos atingem com seus comícios) está produzindo a riqueza material na qual todo o resto de nós vive; da mesma forma aqueles
4.000.000 de negros escravizados sustentaram toda uma multidão de parasitas sobre seus ombros. Eles eram camponeses e operários.

Pelas imprevistas e imprevisíveis operações de instituições que nenhum de nós criou, mas que já existiam quando chegamos aqui, nós trabalhadores, que compomos a parte mais absolutamente necessária de toda estrutura social, e que sem nossos serviços ninguém pode comer, morar, ou vestir, somos exatamente os que menos tem oportunidade para comer, morar, ou vestir — sem falar de outros benefícios sociais que supostamente nos oferecem, como educação e satisfação artística.

Nós trabalhadores temos, de uma ou de outra forma, juntado mutuamente nossas forças tentando melhorar nossas condições de vida; principalmente pela ação direta, e secundariamente pela ação política. Nós formamos Granjas, Alianças Camponesas N.T.: no original Knights of Labor, Associações Cooperativas, Experiências de Colonização, Associações de Trabalhadores, Sindicatos, e a IWW (Industrial Workers of the World). Todos organizados com a finalidade de arrancar dos senhores da área econômica um pagamento um pouco melhor, condições um pouco melhores, horas um pouco mais curtas; ou por outro lado resistir contra uma redução no pagamento, contra condições piores, contra horas mais longas de trabalho. Nenhuma dessas tentativas procurava uma solução final à guerra social. Nenhum delas, com exceção da IWW, reconheceu que há uma guerra social em curso, inevitável enquanto perdurar as presentes condições legais/sociais. Nós trabalhadores aceitamos as instituições da propriedade da forma como encontramos. Elas foram compostas por homens comuns, com desejos de homens comuns, e resolveram fazer coisas que lhes parecia possível e bem razoáveis. Eles não estavam comprometidos com qualquer política em particular quando se organizaram, mas se associaram para a ação direta por iniciativa própria, tanto na forma positiva como na forma defensiva.

Sem dúvida houve e há em todas estas organizações, membros que olharam além das demandas imediatas; que olharam as coisas do ponto de vista do desenvolvimento contínuo das forças agora em operação para provocar rapidamente as condições diante das quais é impossível que a vida continue a mesma, e contra a qual protestem, e protestem violentamente; não há outra alternativa senão essa; ou isso ou a morte inevitável; mas não há nada na natureza da vida que se renda sem luta, assim, não há porque morrer sem lutar. Vinte e dois anos atrás eu conheci o pessoal da Aliança Camponesa que dizia coisas assim, Associações de Trabalhadores que diziam o mesmo, Sindicalistas que diziam o mesmo. Eles pretendiam objetivos maiores que esses e criaram organizações para alcançá-los; mas eles tiveram que aceitar os membros como eles eram, e tentaram na medida do possível fazê-los compreender como as coisas funcionavam. Que eles poderiam ter preços melhores, salários melhores, condições menos perigosas, menos tirânicas, horas mais curtas de trabalho. Na fase do desenvolvimento quando estes movimentos foram iniciados, os trabalhadores do campo não viram a relação da luta deles com a luta dos trabalhadores nas fábricas ou nos transportes; nem estes últimos, por sua vez, perceberam qualquer relação deles com o movimento dos camponeses. Essas coisas bem poucos conseguiram compreender. Eles ainda têm que aprender que há uma luta comum contra aqueles que se apropriaram da terra, do dinheiro, e das máquinas.

Desgraçadamente as grandes organizações camponesas se fragmentaram em uma estúpida luta pelo poder político. Elas tiveram bastante êxito conquistando o poder em certos Estados; mas os tribunais pronunciaram suas leis inconstitucionais, e esse foi o cemitério de todas suas conquistas políticas. Seu programa original era construir seus próprios silos, e armazenar seus produtos, preservando-os do mercado até que pudessem escapar do especulador. Também, organizar bolsas de mão-de-obra, emitir notas de crédito em produtos depositados para troca. Se tivessem aderido a este programa de ajuda mútua dirigida, poderiam, até certo ponto, durante um tempo pelo menos, dispor de uma ilustração de como o gênero humano poderia livrar-se do parasitismo dos banqueiros e dos intermediários. Claro que tudo isso seria subvertido no final — a menos que revolucionassem as mentes dos homens, por exemplo, forçando a subversão do monopólio legal da terra e do dinheiro — mas pelo menos serviria a um grande propósito educacional. Sobre como «sacrificar pouco para ganhar muito» em vez de desintegrar-se em futilidades.

As Alianças Camponesas acabaram relegadas a uma relativa insignificância, não por causa de seu fracasso no uso da ação direta, nem por causa do seu envolvimento com políticos, que era pequeno, mas principalmente porque era uma massa heterogênea de trabalhadores que não conseguiram associar efetivamente seus esforços.

Enquanto as Alianças Camponesas afundavam, os Sindicatos cresciam fortes, e continuaram lentamente seu crescimento, e tenazmente aumentavam em poder. É verdade que às vezes esse fluxo oscilava; que vez por outra houve recuo; que grandes organizações centralizadas foram formadas e novamente dispersadas. Mas em geral os sindicatos constituíram um crescente poderio. E isso ocorreu porque, diante de sua pobreza, foi o meio pelo qual uma certa seção de trabalhadores pôde juntar forças para enfrentar diretamente seus patrões, e conseguir para si alguma porção daquilo que queriam — se não ditavam as condições teriam pelo menos que tentar conseguir isso. A greve era a arma natural que possuíam, uma arma que eles mesmos forjaram. Em noventa por cento dos casos é o sopro direto da greve que faz o patrão tremer de medo. (Claro que há ocasiões quando ele anseia por uma, mas isso é incomum). A razão deste medo da greve não é tanto porque ele acha que não pode fazer nada contra ela, mas apenas e simplesmente porque ele não quer uma interrupção em seus negócios. O patrão ordinário não teme coisas como «voto consciente da classe trabalhadora»; há inúmeros locais onde você pode falar o dia todo sobre Socialismo ou sobre qualquer outro programa político; mas se você começa a falar sobre Sindicalismo pode esperar ser expulso em seguida ou na melhor das hipóteses ser convidado a calar a boca. Por que? Não porque o chefe seja tão sábio a ponto de saber que a ação política é um pântano onde o trabalhador se enlameia, ou porque ele percebe que aquele Socialismo político rapidamente está se tornando um movimento de classe – média; não. Ele acha que o Socialismo é uma coisa muito ruim; mas que é também uma bela porta de saída! Mas ele sabe que se os trabalhadores de sua fábrica forem sindicalizados, ele terá dificuldades imediatas. As mãos desses trabalhadores serão rebeldes, ele será forçado a gastar dinheiro para melhorar as condições de trabalho, ele terá que manter trabalhadores que detesta, e no caso de greve ele pode esperar danos aos seus equipamentos e edifícios.

• dito com freqüencia, e repetidamente como os papagaios fazem, que os patrões são uma «classe-consciente», que eles estão unidos em torno de seus interesses de classe, e que estão dispostos a sofrer qualquer tipo de perda pessoal em defesa desses interesses. Nada disso é verdade. A maioria dos empresários é exatamente como a maioria dos trabalhadores; eles se preocupam o tempo todo mais com suas perdas ou ganho individuais do que com os ganhos ou perdas de sua classe. E é sua própria perda individual que o patrão vê, quando ameaçado por um sindicato.

Agora todo mundo sabe que uma greve de qualquer tamanho significa violência. Não importa a preferência ética pela paz que alguém possa ter, ele sabe que não estará calmo. Se for uma greve de telégrafos, significa arames cortados e postes derrubados, e infiltrar falsos fura-greves para destruir os instrumentos. Se for uma greve de metalúrgicos, significa dar porrada em fura-greves, quebrar janelas, descalibrar bitolas, e arruinar peças caras juntamente com toneladas e toneladas de material. Se for uma greve de mineiros, significa destruir trilhos e pontes, e explodir fábricas. Se for uma greve de trabalhadores de uma tecelagem ou artigos de vestuário, significa a ocorrência de incêndios «acidentais», pedradas em janelas aparentemente inacessíveis, ou
possivelmente uma tijolada na cabeça do dono da fabrica. Se for uma greve de montadora de automóveis, significa remover esteiras ou obstruí-las com resíduos sólidos ou líquidos, com peças pesadas ou robôs, significa carros esmagados ou incinerados e interruptores sabotados. Se for uma greve de um sistema federado, significa máquinas «mortas», máquinas desreguladas, fretes descarrilados, e trens bloqueados. Se é uma greve na área da construção civil, significa dinamitar estruturas. E sempre, em toda parte, em todo o tempo, lutas de seguranças e fura-greves contra grevistas e simpatizantes de grevistas, entre Gente e Polícia.

No lado dos patrões, significa holofotes, cercas elétricas, vigilantes, cárcere privado, detetives e agentes provocadores, sequestro violento e deportação, e todo dispositivo que eles podem conceber para a proteção direta, além de ultimatos da polícia, milícias, polícia distrital, estatal, e tropas federais.

Todo o mundo conhece estas coisas; todo mundo sorri quando os funcionários do sindicato apelam aos trabalhadores para que sejam pacíficos e obedientes à lei, porque todo mundo sabe que estão mentindo. Eles sabem que a violência será usada, secreta e abertamente; e eles sabem que será usada porque os grevistas não podem agir de outro modo, sem imediatamente serem derrotados. Nem por isso eles podem ser acusados de perder a razão por usarem esses recursos violentos. As pessoas entendem em geral que eles fazem estas coisas pela lógica cruel de uma situação que eles não criaram, mas que os força a estes ataques pelo sucesso de sua luta pela vida ou para evitar descer ao poço sem fundo da pobreza, para evitar que a Morte os encontre nos ambulatórios dos asilos, na sargeta, ou na lama. Esta é a alternativa terrível que os trabalhadores estão enfrentando; e é isto que faz com que pessoas integralmente propensas à cordialidade — homens que desviam do caminho para ajudar um cão ferido, ou trazem um gatinho perdido para casa e o alimenta, ou pisam com cuidado para evitar esmagar um pintinho
• recorrem à violência contra membros de sua própria raça. Eles sabem, porque os fatos lhes ensinaram, que este é o único caminho para a vitória, se eles querem mesmo vencer. A coisa mais absurda e totalmente irrelevante que alguém pode dizer ou fazer quando se aproxima na intenção de apoiar ou ajudar um grevista que está lidando com uma situação imediata, é propor «nas eleições a gente dá o troco!» quando a próxima eleição está a uma distância de seis meses, um ano, ou dois anos.

Infelizmente a pessoa que conhece melhor como usar a violência na guerra sindical não pode tomar a palavra e dizer: «Em tal dia, em tal lugar, tal e qual ação específica será feita, o que resultará em que tal e qual concessão será conquistada, ou tal e qual patrão capitulará». Fazer isso tiraria sua liberdade e seu poder para a luta. Então aqueles que melhor conhecem a arte da greve têm que permancer em silêncio em seu cantinho, e deixar a parte do discurso com os tagarelas. É a ação concreta, não o discurso, que dá clareza ao ponto de vista das pessoas.

Nas últimas semanas houve uma enxurrada de tagarelices. Oradores e escritores – honestamente convencidos (eu acho) de que a ação política e apenas a ação política pode dar a vitória aos trabalhadores – tem denunciado o que eles chamam de «ação direta» (a que eles realmente querem dizer é violência conspirativa ou terrorismo) como a autora de danos incalculáveis. Oscar Ameringer, por exemplo, disse recentemente em uma reunião em Chicago que o bombardeio de Haymarket conduziu o patamar da luta pelas 8 horas para vinte e cinco anos atrás, argumentando que quem teve sucesso foi a bomba não o movimento. É um grande engano. Ninguém pode medir exatamente em anos ou meses o efeito de um estímulo ou de uma reação. Ninguém pode provar que o movimento pelas oito-horas sairia vitorioso vinte e cinco anos atrás. Nós sabemos que a jornada de oito-horas foi legalmente estabelecida em Illinois em 1871 pela ação política, e permaneceu como lei morta. Que a ação direta dos trabalhadores ganharia essa parada, isso não pode ser provado; mas pode ser demonstrado que fatores bem mais potentes que a bomba de Haymarket atuaram contra a vitória dos trabalhadores nessa batalha pela jornada de oito horas. Por outro lado, se a influencia reativa da bomba foi realmente tão poderosa, deveríamos naturalmente esperar que as condições de trabalho e de organização sindical seriam piores em Chicago do que nas cidades onde nada disso aconteceu. Pelo contrário, por mais ruins que sejam, as condições gerais de trabalho são melhores em Chicago que nas demais cidades grandes, e o poder dos sindicatos desenvolveu- se mais lá do que em qualquer outra cidade americana com exceção de São Francisco. Assim se temos que tirar qualquer conclusão sobre a influência da bomba de Haymarket, é bom lembrar destes fatos. Pessoalmente eu não acho que sua influência no movimento operário, como tal, foi assim tão grande.

O mesmo ocorre com o presente frenesi sobre a violência. Nenhum fundamento foi alterado. Dois homens foram presos pelo que fizeram (vinte e quatro anos atrás eles seriam enforcados pelo que não fizeram); alguns poucos ainda podem ser presos. Mas as forças da vida continuarão se revoltando contra as cadeias econômicas que as prendem. Essa revolta não cessará nunca, não importa se homens de papel votem ou deixem de votar, enquanto essas cadeias não forem arrebentadas.

Como as cadeias serão quebradas?

Os ativistas políticos nos dizem que as cadeias econômicas só serão quebradas pela ação dos partidos de trabalhadores no poder mediante eleições; o voto colocará os meios de produção e de vida nas mãos do proletariado; que também assumirá o comando das florestas, das minas, das fazendas, das bacias hidrográficas, das fábricas, dos silos; da mesma forma, terá sob seu controle o poder militar para defender seus interesses, todo esse domínio será e estará a serviço do povo.

E depois?

Depois, haverá paz, criatividade, obediência à lei, paciência, e sobriedade (como Madero disse aos peões mexicanos após vendê-los a Wall Street)! Até mesmo se alguns de vocês forem privados de direitos civis ou de privilégios, não é necessário revoltar-se nem mesmo contra essas coisas, pode deixar que «o partido tomará as devidas providências».

Bem, eu já declarei que, ocasionalmente, algumas coisas boas podem resultar da ação política – e não necessariamente da ação de partidos proletários. Mas estou plenamente convencida de que cada benefício alcançado é mais do que anulado pelo malefício que traz a tiracolo; também estou plenamente convencida de que, ocasionalmente, cada malefício resultante da ação direta é mais do que anulado pelo benefício que traz a tiracolo.

Quase todas as leis que foram moldadas originalmente com a intenção de beneficiar os trabalhadores, viraram armas armas nas mãos dos seus inimigos, ou se tornaram letra morta a menos que os trabalhadores pelas suas organizações obriguem diretamente sua observância. De forma que no final das contas, e de todas as maneiras, é na ação direta que devemos depositar nossa confiança. Como exemplo da ineficácia de uma lei, basta observar a lei antitruste que supostamente beneficiava o povo em geral e o proletariado em particular. Cerca de duas semanas depois que a lei entrou em vigor, 250 líderes sindicais foram citados para responder processo acusados de truste. Esse foi o efeito da lei aos grevistas de Illinois.

Mas os malefícios provocados pela confiança na ação indireta são bem maiores do que se pode imaginar. O principal malefício é que destrói a iniciativa, extingue o espírito rebelde de cada um, ensina pessoas a confiar em outra pessoa para fazer para eles o que eles deveriam fazer por si próprios; finalmente torna orgânica a ideia anômala de que aglomerar uma multidão inerte até que uma maioria seja obtida fará com que – por uma estranha magia daquela maioria – aquela inércia seja transformada em energia. Quer dizer, pessoas que perderam o hábito de lutar por si mesmas enquanto indivíduos, pessoas que se submetem a toda injustiça esperando que uma maioria seja formada, são metamorfoseadas em humanos de alto poder explosivo por um mero processo de empacotamento!

Eu concordo totalmente que as fontes da vida, e toda a riqueza natural da terra, e as ferramentas necessários à produção cooperativa, tem que estar livremente acessíveis a todos. Tenho certeza de que o sindicalismo precisa alargar e aprofundar seus propósitos, ou será extinto; estou segura de que a lógica da situação os forçará a ver isto gradualmente. Eles têm que aprender que o problema dos trabalhadores nunca pode ser resolvido espancando fura-greves, sua própria política de limitar seus sócios cobrando altas taxas e outras restrições ajuda criar fura-greves. Eles têm que aprender que o curso do crescimento não está tanto em salários mais altos, mas em jornadas mais curtas de trabalho que os permitirão a aumentar a quantidade de membros, a chamar qualquer pessoa disposta a entrar no sindicato. Eles têm que aprender que se eles querem mesmo ganhar batalhas, todos os trabalhadores aliados têm que agir em conjunto, e agir depressa (sem avisar aos patrões), e resguardar sua liberdade de entrar em greve quantas vezes for necessário. E finalmente eles têm que aprender (quando houver uma organização completa) que jamais ganharão nada permanente a menos que lutem, não por conquistas parciais, mas por conquistas totais – não por um salário, não por benefícios secundários, mas pela conquista de todas as riquezas naturais do planeta. E procedam à expropriação direta de tudo!

Eles têm que aprender que seu poder não está na força do seu voto, mas na sua habilidade de parar a produção. É um grande engano supor que os assalariados constituem a maioria dos eleitores. Os assalariados estão hoje aqui e amanhã acolá, e isso impede um número grande deles de votar; uma grande porcentagem deles neste país são estrangeiros sem direito a voto. A prova mais patente, e os líderes Socialistas sabem disso, é que os sindicatos estão comprometendo cada ponto de seu programa visando angariar apoio da classe empresarial, e do pequeno investidor. Os documentos de seus programas proclamam que seus acordos foram assegurados por compradores de títulos de Wall Street, e que eles igualmente estariam prontos a comprar títulos de socialistas de Los Angeles da mesma forma que compram de administradores capitalistas; e que a atual administração de Milwaukee foi benéfica ao pequeno investidor; seus periódicos asseguram aos seus leitores naquela cidade que nós não precisamos ir até grandes lojas de departamentos para comprar – basta comprar de Fulano de Tal na Avenida Milwaukee, que ficaremos totalmente satisfeitos como se estivéssemos comprando em uma «grande instituição empresarial». Em suma, eles estão fazendo um desesperado esforço para ganhar o apoio e prolongar a existência daquela classe média que a economia socialista diz estar em frangalhos, porque sabem que não podem alcançar maioria sem eles.

O máximo que um partido de trabalhadores pode conseguir, supondo que seus políticos permaneçam honestos, seria formar uma forte facção no parlamento – somando votos de vários lados – para obter certos paliativos políticos ou econômicos.

Mas aquilo que a classe trabalhadora pode fazer, na medida em que toma a forma de uma sólida organização, é mostrar à classe proprietária, por uma parada súbita de todo trabalho, que toda estrutura social está sobre seus ombros; e que as propriedades e riquezas da classe empresarial são absolutamente inúteis para eles sem a atividade dos trabalhadores; tal protesto, tal golpe, direto no coração do sistema da propriedade, ocorrerá periodicamente, continuamente, até que a coisa inteira seja abolida – e tendo mostrado sua eficácia, procederá a expropriação.

«E quanto ao poder militar?», diz o ativista político; «temos que conquistar poder político, ou o exército será usado contra nós!»

Contra uma real Greve Geral, o exército não pode fazer nada. Oh, ou melhor, se você tiver um Socialista como Briand no poder, ele pode declarar os trabalhadores «funcionários públicos» e mandar o exército contra eles! Mas contra o sólido muro de uma massa de trabalhadores parados, nem Briand poderia derrubá-lo.

Enquanto isso, até este despertar internacional, a guerra entre as classes continuará seguindo seu curso, apesar de toda essa manifesta histeria de pessoas bem-intencionadas mas que não compreendem a vida e suas necessidades; apesar do patente temor dos líderes acovardados; apesar de toda vingança reacionária que pode ser perpetrada; apesar de todo capital que os políticos recebem da situação. A luta de classes continuará seu curso porque a Vida anseia por viver, mesmo com a Propriedade negando sua liberdade para viver; a Vida não se submeterá.

Nem deve se submeter.

Seguirá seu curso até aquele dia quando uma Humanidade que se auto libertou puder cantar o Hino ao Homem de Swinburne.

«Glória ao Homem nas alturas,

Ao Homem, Senhor das coisas».

NOTAS

1 Apologética é a disciplina teológica própria de uma certa religião que se propõe a demonstrar a verdade da própria doutrina, defendendo-a de teses contrárias.

(ir arrumando as notas de acordo com ir contextualizando o texto)

Ação Direta, o que é , para que serve

Receitas para o Desastre, Crimethinc

O que é?

Este é um manual de ação direta. Não é o único, existem milhares: qualquer guia de jardinagem é um manual de ação direta, assim como todo livro de receitas. Qualquer ação que passa por cima de regulamentos, representantes e autoridades para alcançar diretamente um objetivo é ação direta. Numa sociedade em que o poder político, o capital financeiro e o controle social estão concentrados nas mãos de uma elite, algumas formas de ação direta são, no mínimo, desencorajadas; este livro trata particularmente destas, para todos aqueles que querem tomar as rédeas de sua própria vida e aceitar sua parcela de responsabilidade na determinação do destino da humanidade.

Para o cidadão nascido em cativeiro e criado como um espectador, a base de submissão, a ação direta muda tudo. Na manhã em que ele se levanta para colocar um plano em andamento, ele acorda sob um sol diferente – isso é, se ele tiver conseguido dormir – e em um corpo diferente, atento a cada detalhe do mundo que o cerca e de posse do poder para mudá-lo. Ele vê seus companheiros dotados de imensa coragem e habilidade, prontos para desafios monumentais e dignos de muito amor. Juntos, eles entram em uma terra estrangeira onde os resultados são incertos, mas onde tudo é possível e cada minuto conta.

Ação Direta versus Representação

Praticar ação direta significa agir diretamente para suprir necessidades, em vez de depender de representantes ou escolher entre opções prescritas. Atualmente o termo é comumente usado para indicar táticas ilegais de protesto que pressionam governos e corporações para que tomem certas decisões, o que essencialmente, não é muito diferente de votar ou fazer doações a campanhas políticas; mas é mais precisamente toda ação que exclui os intermediários para resolver problemas sem mediação.

Precisa de exemplos? Você pode doar dinheiro a uma organização de caridade, ou você pode começar seu próprio grupo de Comida Não Bombas e alimentar a você mesmo e a outras pessoas famintas de uma vez. Você pode escrever uma carta raivosa ao editor de uma revista que não faz uma boa cobertura das coisas que você acha importante, ou você pode começar sua própria revista. Você pode votar para um prefeito que promete começar um novo programa de ajuda aos sem-teto, ou você pode ocupar um prédio abandonado e abrir ele para pessoas em necessidade. Você pode escrever ao seu senador ou deputado, pedindo que ele se oponha a uma lei que permite o desmatamento e, se a lei passar mesmo assim, você pode ir até a floresta e parar o desmatamento sentando junto às árvores, bloqueando as estradas e destruindo o maquinário.

O oposto de ação direta é a representação. Existem muitos tipos de representação: palavras são usadas para representar idéias e experiências, os telespectadores de uma novela deixam seus medos e esperanças serem representados pelos protagonistas, o papa diz ser o representante de Deus, mas o exemplo mais conhecido atualmente pode ser encontrado no sistema eleitoral. Nessa sociedade nós somos encorajados a pensar na votação como o nosso meio primário de exercer poder e participar socialmente. Ainda assim, quer a gente vote com uma cédula para um representante político, com dinheiro para um produto de procedência corporativa, ou com seu guarda-roupas em uma cultura juvenil, votar é um ato de adiamento, no qual o votante escolhe uma pessoa, sistema ou conceito para representar os seus interesses. Esta é uma maneira, no mínimo, não-confiável de exercer o poder.

Vamos comparar votação com ação direta, para mostrar as diferenças entre atividades mediadas e não mediadas em geral. Votar é uma loteria: se um candidato não é eleito, a energia que os seus eleitores gastaram para apoiá-lo é desperdiçada, já que o poder que eles estavam esperando que fosse exercido em prol deles vai para outra pessoa. Com a ação direta todos podem saber que o seu esforço trará resultados. Em contraste com qualquer tipo de petição, a ação direta garante recursos que outros não podem roubar: experiência, contatos na comunidade e o respeito relutante dos adversários, por exemplo.

A votação consolida o poder de toda uma sociedade nas mãos de alguns indivíduos; através da pura força do hábito, sem contar com os outros métodos de imposição, todos estão em uma posição de dependência. Na ação direta, as pessoas utilizam seus próprios recursos e capacidades, descobrindo no processo quais eles são e o que podem alcançar.

Votar força todos num movimento a tentar concordar sobre uma plataforma: coalizões discordam sobre quais acordos fazer, cada facção insistindo que o seu jeito é o melhor e que os outros estão estragando tudo por não seguirem o seu programa. Muita energia é desperdiçada nestas disputas e recriminações. Na ação direta, não é necessário um consenso geral; grupos diferentes aplicam táticas diferentes de acordo com o que eles acreditam e com o que se sentem confortáveis em fazer, sempre atentos para complementar os esforços dos outros. Pessoas envolvidas em diferentes tipo de ação direta não têm necessidade de discutir, a não ser quer elas realmente tenham objetivos conflitantes, ou porque anos de votação os tenham ensinado a lutar contra com qualquer um que não pense exatamente como eles.

Conflitos sobre as votações constantemente distraem as pessoas dos verdadeiros problemas, uma vez que elas são contagiadas pelo drama de um partido contra outro, de um candidato contra o outro e de uma proposta contra a outra. Com a ação direta, os problemas são levantados, trabalhados especificamente e, freqüentemente, resolvidos.

Votar só é possível em época de eleições. A ação direta pode ser aplicada sempre que se quiser. Votar é útil apenas para tópicos que estão nos programas de governo dos políticos, enquanto a ação direta pode ser aplicada para todos os aspectos da sua vida, em qualquer parte do mundo que você viva. A ação direta faz melhor uso de recursos que a votação, campanha ou solicitação: um indivíduo pode alcançar, com um um dólar, um objetivo que custaria a um coletivo dez dólares, a uma organização não-governamental cem dólares, a uma corporação mil dólares, e ao estado dez mil dólares.

A votação é glorificada como uma manifestação de nossa suposta liberdade. Isso não é liberdade, liberdade é poder escolher as escolhas em primeiro lugar, e não escolher entre Pepsi e Coca-Cola. Ação direta é a coisa real. Você cria o plano, você cria as opções, o céu é o limite.

E para que serve?

A ação direta não precisa ser popular para ser eficiente. O objetivo da ação direta é a própria ação, não se importando com suposta opinião pública ou com a cobertura da mídia. Aqueles que cresceram dentro da Monocultura da Democracia, acreditando que a votação é o começo e o fim da participação social, constantemente presumem que o único objetivo possível para qualquer atividade política é o de converter outros para uma posição de modo a consituir um eleitorado; conseqüentemente, eles falham em reconhecer a vasta gama de fins para os quais a ação direta pode servir. Estas são as pessoas que são sempre rápidas em apontar como o grafite destrói a imagem do “movimento”, ou como projetos artísticos pessoais são irrelevantes para as necessidades do “povo”. Mas ajudar a “converter as massas” é a penas uma das possíveis finalidades da ação direta. Vamos examinar algumas outras.

A ação direta pode simplesmente resolver um problema isolado: um grupo de moradores de uma mesma casa precisa comer, então comida é plantada, retirada do lixo ou roubada; uma propaganda é considerada ofensiva, então é arrancada ou alterada; um grupo de amigos quer aprender mais sobre a literatura latino-americana, então um clube de leitura é criado. A ação direta pode ser a forma de um pequeno grupo dar sua contribuição para a comunidade: as pessoas precisam ser informadas que um estrupador está agindo na vizinhança, então panfletos são feitos e distribuídos; a polícia está fora de controle, então um grupo de vigias comunitários é iniciado para avisar da presença policial. Ação direta pode ser uma oportunidade para pequenos grupos se acostumarem a trabalhar juntos em grandes redes: o senhorio se recusa a consertar os apartamentos, então um grupo de moradores se une para organizar uma greve no pagamento dos aluguéis.

Ação direta pode ser usada para influenciar a opinião de toda uma nação, mas também pode ser aplicada em um pequeno e específico grupo de pessoas, que pode ser mais facilmente influenciado: o grafite nas ruas pode não ser levado a sério por adultos da classe média, mas algumas das suas crianças o enxergam como uma revelação. A ação direta pode ser direcionada para o benefício de indivíduos isolados, ao invés de tentar atingir todo cidadão comum: um pôster colado com farinha no qual se lê “É UMA PENA QUE CONCRETO NÃO QUEIME” pode não ser vastamente apreciado, mas vai ajudar aqueles que compartilham deste sentimento a sentir que não estão totalmente sozinhos e loucos, e talvez os inspire transformar o seu rancor silencioso em expressivos projetos pessoais.

Ação direta pode dar visibilidade para um grupo ou para um ponto de vista que de outra forma não seria representado, ou enfatizar a possibilidade de um ponto de vista que aqueles no poder iriam negar: um jornal independente espalha as notícias que a mídia corporativa não dividiria, assim como janelas de corporações quebradas provam que, apesar do que os especialistas dizem, nem todos estão felizes com o capitalismo. Ação direta pode demonstrar que condições psicológicas e sociais que parecem inevitáveis podem ser alteradas: uma festa de rua não-autorizada que transforma um bairro comercial em um espaço grátis e festivo espaço mostra que podemos decidir a função de qualquer espaço. Ação direta pode fazer a nossa vida menos previsível, mais mágica e excitante ou ao menos cômica, tanto para os espectadores ocasionais como para os participantes. Quando os negócios, como de costume, são opressivos e depressivos, somente interrompê-lo já é um serviço prestado a todos.

Popular ou não, a ação direta pode manter assuntos importantes nas manchetes e nas conversas privadas: sabotar represas que destroem o meio ambiente pode diminuir seus efeitos ecológicos, não importando se as pessoas aprovam ou não a sabotagem em si. Ação direta pode dar a um grupo influência social e política: na década de 1980, okupadores holandeses, enfrentando a ameaça de desocupação, demonstraram o seu poder com uma campanha direta de assédio e vandalismo que custou a Amsterdã sua chance de sediar os Jogos Olímpicos, e lhes deu uma vantagem para barganhar com a cidade por seus lares. A ação direta pode proporcionar um obstáculo: após as demonstrações durante o encontro da Organização Mundial do Comércio em Seatle, somente o Qatar quis sediar a próxima reunião da OMC. Pessoas que normalmente não se oporiam ao seu governo entrar à guerra talvez o façam se souberem que a guerra vai resultar em maciças demonstrações que irão prejudicar os seus negócios e interferir no cotidiano.

A ação direta pode inibir as más ações das corporações se lhes infligir perdas financeiras: ativistas em prol dos direitos animais colocaram fora do mercado diversas corporações comerciantes de peles usando do vandalismo, obstrução e protestos. A ação direta pode descredibilizar ou desabilitar organizações malignas se as conectar, no subconsciente popular, à violência e a problemas: se toda vez que um partido racista tentar sediar uma reunião ela terminar em brigas de rua, nenhuma cidade permitirá que eles se encontrem abertamente e poucos convertidos engrossarão as suas fileiras. A ação direta pode polarizar adversários: quando alguém não consegue persuadir ou ao menos coexistir com um oponente, uma campanha de provocações e de interferências pode conduzi-los a um extremismo paranóico que irá afastá-los de todas as outras pessoas.

A ação direta pode definir a atmosfera de qualquer evento: se faixas estiverem sendo esticadas e rádios piratas estiverem transmitindo durante toda a semana, todos esperarão que a conferência de comércio corporativo e a demonstração de repúdio anarquista sejam memoráveis ― e essa expectativa vai ajudar a si mesma a se tornar real. A ação direta pode demonstrar táticas que outras pessoas poderão usar e copiar; durante anos estas táticas podem ser úteis apenas para minorias, até que durante uma crise elas se tornam indispensáveis para todos. Quando a crise chegar, vão estar em melhor situação aqueles que vêm praticando e aperfeiçoando essas habilidades, e todos os outros terão ao menos ouvido falar nelas.

A ação direta pode salvar vidas e devolver a dignidade àqueles que a protagonizam pois torna possível para eles confrontar a injustiça diretamente, em ataques de libertação animal, por exemplo. Pode ser a melhor forma de terapia, ajudar aqueles que agem para curar sentimentos de tédio, desesperança e impotência. Quando não se faz nada, tudo parece impossível; uma vez engajado em alguma atividade, fica mais fácil de imaginar o que mais é possível e de reconhecer oportunidades à medida que elas surgem.

A ação direta oferece a chance de tirar proveito de suas convicções e desejos como a experiência de vida que, por direito, deveriam ser. Não fique apenas pensando sobre algo, não fique apenas falando sobre algo e, pelo amor de deus, não fique só reclamando ― faça alguma coisa! Ação direta é um meio de chegar ao saudável hábito agir ao invés de ficar apenas olhando: todo impulso que é permitido evoluir até a ação direta é um incentivo para a ocorrência de mais ações. É nessa sociedade passiva e paralisada que nós desesperadamente temos que cultivar, em nós mesmos, e incentivar, nos outros, os hábitos de engajamento e participação. Como eles dizem, a ação direta é que consegue as coisas.

Ajuda Mútua e Buscar as Pessoas

Qualquer pessoa com habilidades na prática de ação direta ganha ao dividi-las com outros. Isso é o oposto de “converter” pessoas: isso dá às pessoas o poder de serem elas mesmas, não é uma tentativa de transformar as pessoas em cópias de alguém. Quanto mais capaz cada indivíduo e grupo for, mais eles podem oferecer uns aos outros, e mais capazes todos estarão para promover igualdade. A disseminação da prática de ação direta cria relações de coexistência e apoio mútuo, além de enfraquecer as relações hierárquicas e a opressão: quando as pessoas estão igualmente informadas, equipadas e familiarizadas com a tomada de iniciativa, elas tem mais interesse em aprenderem a se dar bem, e a liberdade e a igualdade necessariamente vêm atrás.

Anarquistas e outros partidários da ação direta não dão ordens nem oferecem liderança: ação direta é um substantivo seguido de um adjetivo, não um verbo seguido por um objeto! Ao invés disso, eles mostram opções ao agirem de maneira autônoma, tendo o cuidado de disponibilizar aos outros qualquer conhecimento e recurso obtido através da experiência ― este livro sendo um exemplo disto.

Muitos dos que tentam educar os outros sobre injustiças cometem o erro de prover as pessoas com grande quantidade de material sem oferecer idéias sobre o que fazer. Sobrecarregadas com fatos, figuras e más notícias a maioria das pessoas acha ainda mais difícil agir, não mais fácil; portanto tais tentativas de conscientização com a intenção provocar mudanças são constantemente auto-sabotadas. Seria sábio aplicar as seguintes técnicas na hora de informar as pessoas: para cada assunto que você apresentar, gaste a mesma quantidade de tempo e energia apresentando habilidades, sugestões e oportunidades para a ação que você gasta para apresentar informação e a situação. Uma regra semelhante é que quanto mais parecida a situação de uma pessoa for com a sua, mais ela ou ele pode ganhar ao ouvir as suas sugestões e perspectivas; e quanto mais as suas histórias de vida divergirem, mais você vai se beneficiar de ouvir e aprender, ao invés de tentar explicar algo fora do contexto que você conhece.

Também ocorre que algumas pessoas que praticam a ação direta, ansiosos para saírem debaixo da bota de seus opressores, se afundam na luta de maneira tão profunda que ninguém mais pode se juntar a eles, para o seu próprio infortúnio. Ao considerar uma tática é importante se perguntar se até que nível ela torna as outras pessoas capazes de agir, ao invés de apenas deixá-las imobilizadas como espectadores. Por exemplo, o bloco negro nos protestos contra a Organização Mundial do Comércio em Seatle em 1999, apresentou um modelo que passou a ser usado várias vezes com grande impacto, enquanto as táticas do Weather Underground nos anos 70 atingiram feitos notáveis, mas falharam em inspirar outras pessoas a se tornarem ativas. A longo prazo, as táticas mais poderosas são aquelas que inspiram e equipam outras pessoas para se juntarem à luta. É importante definir a velocidade de evolução de uma luta para que novas pessoas se envolvam em uma taxa maior do que a de participantes que são paralisados pela repressão: é assim que o impulso que dá início às revoluções é criado. Os seus inimigos lá em cima só querem isolar você de todos outros que estão bravos pelas mesmas razões. Faça questão de se manter acessível e conectado com outros, de modo que eles possam vir com você, se assim desejarem, quando começar sua jornada para um novo mundo.

A diversidade de táticas

Comunidades que praticam a ação direta são constantemente perturbadas por conflitos sobre que táticas são mais apropriadas e eficientes. Normalmente esses debates são impossíveis de serem resolvidos, e isso é uma coisa boa. Ao invés disso, na medida do possível, as atividades daqueles que empregam métodos diferentes e mesmo daqueles que buscam objetivos distintos devem ser integradas de maneira que gere benefício mútuo.

Aceitar a diversidade de táticas provê para toda diversidade de verdadeiros seres humanos. Todo indivíduo tem uma história de vida distinta e, conseqüentemente, considera libertadoras e vê sentido em diferentes atividades. Insistir que todos devem adotar a mesma abordagem é prova de arrogância e falta de visão ― esse tipo de atitude parte do pressuposto que você tem capacidade de decidir para outras pessoas ― além de não ser realista: qualquer estratégia que exija que todos pensem e ajam da mesma maneira está destinada ao fracasso, pois seres humanos não são tão simples ou submissos. Críticos constantemente alegam que as táticas as quais eles se opõem irão alienar participantes em potencial, mas quanto mais diversificadas foremas táticas usadas por um movimento, maior será o número de pessoas que poderão se identificar com alguma das diferentes táticas empregadas. Pode ser necessário para grupos que aplicam diferentes táticas se distanciarem perante os olhos do público, mas eles não precisam se colocar de maneira antagônica.

Um movimento que usa várias táticas é capaz de se adaptar no caso de mudança de contexto. Um movimento destes é um laboratório no qual vários métodos podem ser testados; os que funcionarem serão facilmente identificados, e irão, naturalmente, se tornar populares. Como nós ainda não conseguimos derrotar o capitalismo de uma vez por todas por nenhum método, todos ainda valem a tentativa, pois algum pode funcionar. Dessa maneira, aqueles que usam métodos diferentes daqueles que você favorece estão lhe fazendo um favor ao poupar-lhe o trabalho de testar os métodos você mesmo.

Táticas distintas, aplicadas conjuntamente, podem se complementar. Da mesma maneira que os métodos mais agressivos de Malcolm X forçaram brancos privilegiados a levarem a sério a desobediência civil não-violenta de Martin Luther King, Jr., uma combinação de táticas que vão de acessíveis e participativas a militantes e controversas podem, simultaneamente, chamar atenção para a luta, oferecer oportunidades para as pessoas se envolverem em seu próprio ritmo e fornecer influência em diversos níveis àqueles que fazem parte da luta.

Honrar a diversidade de táticas significa frear o desejo de atacar aqueles cujos métodos escolhidos parecem ser ineficazes para você, e ao invés disso se focar nos elementos que faltam que você poderia adicionar para tornar os esforços de todos mais eficientes. Portanto, essa diversidade reformula a questão da estratégia em termos de responsabilidade pessoal: em todas conjunturas a pergunta não é mais o que outra pessoa deve fazer, mas sim o que você pode fazer.

A importância de uma diversidade de táticas não se aplica somente quando é conveniente para você. Não alegue acreditar na diversidade de táticas apenas para depois argumentar que ― apenas neste caso em particular, é claro ― outras pessoas devem priorizar os seus métodos ao invés dos deles. Reconhecer o valor da diversidade de táticas significa levar em conta que outros irão tomar decisões diferentes baseadas nas suas distintas perspectivas, e respeitar isso mesmo quando as decisões deles deixarem você perplexo.

Aceitar a legitimidade da diversidade de táticas significa abandonar uma linha de pensamento competitiva na qual existe apenas um jeito certo de fazer as coisas para um modo de pensar mais inclusivo e cheio de nuances. Isso desafia as hierarquias de valor e de poder, diminui abstrações rígidas como “violência” e “moralidade”.

Finalmente, respeito por táticas diversas torna grupos distintos capazes de construir uma solidariedade duradoura. Tal solidariedade deve ser fundada sobre um compromisso a coexistir e colaborar em harmonia, ao invés de exigências limitadoras para uma unidade.

Assim como alguém de visão curta rejeita táticas que não sejam a sua afirmando que são ineficientes, outros sentem a necessidade de competir para determinar quais táticas são as mais dedicadas ou mais impressionantes. Mas os triunfos mais dramáticos da ação direta militante só são possíveis graças ao apoio de pessoas que aplicam abordagens mais convencionais, e vice-versa. É importante que não vejamos as táticas como partes de uma hierarquia de valores, que vai de seguras e insignificantes a perigosas e gloriosas, mas sim como um ecossistema no qual todas têm um papel fundamental. Como revolucionários, nosso papel nesse ecossistema é criar uma harmonia que ajude tantos os nossos esforços quanto os dos outros, mesmo que alguns deles queiram perder tempo competindo conosco pelo prêmio de “estar certo” ou “ser mais ousado”. Nenhuma tática pode ser eficiente sozinha; todas podem ser eficientes juntas.

Legal e Ilegal

Às vezes ação direta significa quebrar a lei. De fato, ação direta é uma formar de se renegociar as leis, tanto as escritas quanto não-escritas. Quando as pessoas agem de acordo com a consciência ao invés de por convenção, quando elas transgridem deliberadamente e em massa, a própria realidade pode ser refeita. Isso não quer dizer que se safar ao quebrar leis só por parar de acreditar nelas; mas se todo mundo quebrar ela com você, as dinâmicas mudam.

Os agentes protetores da lei estão à mercê de muitos fatores ao mesmo tempo. O seu emprego, é claro, é proteger as leis que estão nos livros, protegendo o poder e a propriedade e mantendo os recursos humanos e financeiros fluindo para a indústria judicial e para o complexo prisonal-industrial. Ao mesmo tempo, até algum ponto, eles estão à mercê da opinião pública: o público, ou pelo menos as parcelas privilegiadas dele, tem que acreditar que eles estão “fazendo o seu trabalho”, mas sem exageros. Eles também são limitados por logísticas simples: se cinqüenta pessoas saem correndo de um supermercado sem pagar ao mesmo tempo, um único policial só pode esperar prender uma, ou no máximo duas, pessoas. Além disso tudo, ele são apenas humanos (e isso é lisonjeá-los): eles têm egos frágeis para manter tranqüilos, eles podem demorar para absorver informações, e a sua infra-estrutura é freqüentemente mal organizada e ineficiente. É possível distraí-los, surpreendê-los, até mesmo desmoralizá-los.

Sempre que você pensar em quebrar a lei, leve em consideração todos os fatores que irão influenciar a resposta da polícia. Legal e ilegal não são características imutáveis do cosmos ― elas são tão fluidas quanto os contextos: não é contra a lei se você não for pego, como bem sabe toda criança e presidente de corporação. Um protesto não-autorizado que resulta em vinte prisões quando posto em prática por vinte pessoas pode acabar sem nenhum obstáculo se for posto em prática por duzentas pessoas; ao mesmo tempo, vinte pessoas com um plano e a certeza de que ele pode ser levado a cabo podem facilmente alcançar objetivos que duzentas pessoas, menos preparadas, jamais poderiam. Basicamente, quando se trata de ação direta, as leis são imateriais: se o que você está fazendo é realmente subversivo, as autoridades tentarão impedi-lo quer isso seja ilegal ou não ― se eles puderem. Seus números, sua coragem, sua preparação e visão, a sua dedicação em apoiar um ao outro, acima de tudo a sua convicção de que o que você está fazendo é possível: essas são as suas licenças, suas garantias, e você não precisa de outras.

“Mas e se eu for pego?” Filho-da-mãe, você já foi pego. É melhor se perguntar: e se eu me libertar?

Quando você participa de atividades perigosas, é importante não ir além do que você acredita estar pronto para ir: se você se ferir, for preso ou se encrencar de outra forma ao se envolver em riscos para os quais você não está emocionalmente preparado, os efeitos podem ser devastadores. É muito melhor que você comece devagar e de forma conservadora, construindo um envolvimento sustentável com projetos de ação direta que poderão durar por uma vida, do que sair correndo para a ação com um abandono total, ter uma experiência ruim, e nunca mais querer saber desse tipo de atividade. Acerte o seu passo e sempre pare quando estiver em vantagem, de forma que você possa aprender e desenvolver seus instintos num ritmo seguro. Acredite ou não, existem pessoas no auge da sua vida que lutaram por toda sua vida na guerra contra o capitalismo sem jamais serem pegos. Vamos desafiar a nós mesmos e ao mundo, vamos correr riscos e empurrar limites, mas vamos fazê-lo com consciência e cuidadosamente, como parte de um processo a longo prazo, para que as experiências que ganhamos não sejam desperdiçadas!

Um dia, quando o conflito entre as pessoas e o poder se aproximar do seu clímax, tudo que fizermos será ilegal; então, talvez, a coragem e a cooperação vencerão sobre o medo e a tirania, e nós nos libertaremos da lei de uma vez por todas. Enquanto isso, toda instância de ação direta, por mais humilde que seja, é um microcosmo desse momento decisivo, e uma semente em potencial da qual ele pode crescer.

Alimentando uma Comunidade de Ação Direta

Embora nada seja nunca simples, vamos postular que há quatro elementos essenciais que devem estar presentes para uma comunidade se tornar consciente de seu próprio poder e adquira o hábito de usá-la deliberadamente. Primeiro, pelo menos um punhado de indivíduos devem investir na ação direta, na ajuda mútua e na mudança social revolucionária como projetos de vida. É preciso a fé, o consumo e o trabalho de turno integral de milhões de pessoas para manter o esquema que garante a servidão, escassez e alienação. Sempre que alguns de nós param de investir na perpetuação desse sistema e, ao invés disso, usamos nossos recursos para criar um espaço fora da sua ditadura, coisas maravilhosas podem acontecer.

Em segundo lugar, a ação direta deve ser empregada para prover as necessidades básicas das pessoas de uma forma que promova a auto-confiança e construa redes de cooperação e de confiança. Isso pode significar servir refeições de graça no parque, ou impedir à força um despejo, ou organizando shows e eventos sociais radicais ― a necessidade de entretenimento e camaradaria não é menos fundamental que a necessidade de comida a moradia. Quanto mais as pessoas suprirem suas necessidades diretamente e em conjunto, menos elas precisam do sistema capitalista e das soluções condicionadas que ele oferece ― e mais elas podem investir em construir alternativas a ele.

Em terceiro lugar, o poder da ação direta deve ser demonstrado de maneira empolgante, acessível, participativa. Ao invés de deixarmos a ação direta se tornar a especialidade de um subcultura ou de uma classe de especialistas, aqueles que apreciam o seu valor devem arrumar oportunidades para pessoas de todos os tipos participarem, começando nas comunidades que lhe são mais familiares. Todos envolvidos em tais demonstrações devem ter experiências fortalecedoras que indicam a possibilidade de um modo de vida completamente diferente. Para que isto ocorra, o caráter de toda demonstração deve ser ditado pelas necessidades e circunstâncias daqueles que participarão: uma turma de estudantes do ensimo médio, rebeldes e entediados, pode descobrir o seu poder coletivo ao saírem todos juntos da sala de aula, enquanto os moradores de um bairro podem ter uma revelação similar ao cultivarem um jardim coletivo. Todos eventos e contextos estão prontos para a conversação em ação direta participativa, por mais repressivos que eles pareçam: um discurso numa cerimônia pomposa pode rapidamente ser transformado em um furacão de discussão criativa, assim como uma multidão de consumidores dóceis em um show podem ocupar as ruas num protesto não-autorizado ― tudo que é preciso são alguns indivíduos se apropriem de uma possibilidade até então impensável mas há muito desejada de uma forma que seja contagiosa. Mas não basta que essas demonstrações sejam eventos isolados: deve ser fácil para aqueles que se sentirem inspirados por elas se conectarem a projetos correntes e a comunidades nas quais ele possam dar substância às suas novas visões.

Finalmente, deve-se criar uma atmosfera que provoque curiosidade, construa um impulso e mantenha a moral. Onde quer que as pessoas vão, devem haver provas de que algo está acontecendo, que grandes mudanças estão armazenadas. O assunto da ação direta, por mais controverso que seja, deve estar na ponta de todas as línguas, e a sua substância riscada em toda parede e empregada em todo local de trabalho. Especulações loucas, rumores sussurrados, convites secretos, cruzadas apaixonadas, triunfos épicos, surpresas, suspense, drama, aventura: isso é o que faz as revoluções, e sem eles seria impossível romper as correntes entre o medo e o desejo.

Apesar das suas melhores tentativas, haverão períodos quando o impulso morre e parece que você está perdendo o terreno que conquistou. Durante uma fase de declínio da atividade, não entre em pânico nem perca a esperança. Se recomponha, aceite como parte do ciclo da vida; irá passar. Agüente com as outras pessoas que ficaram, focando-se em projetos que valham a pena que vocês possam realizar sem uma multidão ao seu redor. Use estes períodos para consolidar o que vocês aprenderam e construíram, e para desenvolver novas relações e competências para que você esteja pronto para levar as coisas ainda mais longe quando as coisas voltarem a aquecer ― como certamente acontecerá.

Não deixe ninguém lhe dizer que nada vai mudar. Revoluções sempre acontecem, isso é tão certo quanto o fato de que a Terra gira. A única questão é se participamos delas inconscientemente, lavando nossas mãos da responsabilidade pelas escolhas que fazemos, ou deliberadamente, transformando nossos sonhos em realidade a cada passo.