A despolitização da cultura lésbica

Por: Susan Hawthorne Tradução de Jéssica Ribeiro Artigo apresentado na conferência AWSA, Brisbane Publicado em Hecate: Special Conference Issue: Vol. 29, Nº 2, 2003: 235–247

“O indivíduo tem a imaginação de seu século, de sua cultura, de sua geração, de sua própria classe social, de sua década, e a imaginação do que ele lê, mas acima de tudo, o indivíduo tem a imaginação de seu corpo e do sexo que seu corpo habita.’’ Nicole Brossard. 1988, The Aerial Letter. p. 82.

Introdução
Eu comecei a pensar de forma reflexiva sobre o tema da cultura lésbica a alguns anos atrás quando eu estava escrevendo uma série de poemas de hipertexto, “Unstopped Mouths’’1 {N.T.: Bocas que não são paradas; Bocas incontroláveis}, sobre cultura lésbica. Por volta do ano passado eu estive perguntando às mulheres se a cultura lésbica existe. Isso me fez pensar por que a cultura lésbica era tão difícil de se ver e por que algumas pessoas pensam que ela sequer existe?

O segundo evento foi a recente morte de Monique Wittig, ocorrida na primeira semana de 2003. Eu descobri por meio de amigos em listas de e-mails que havia alguns obituários nos EUA, onde ela viveu e um no Le Monde, Paris, onde ela cresceu e ganhou os principais prêmios literários. Eu estava perturbada pelas notícias e enviei isso para amigos de todo o mundo. Um dia depois Morris Gibb morreu e a televisão australiana registrou a morte dele por vários dias. Eu ainda não tinha escutado um pio na mídia australiana sobre Monique Wittig. Para mim e muitas outras feministas e lésbicas, Monique Wittig mudou nosso modo de ver o mundo. A primeira novela dela que eu li foi The Guérillères {N.T.: As Guerrilheiras} (1969, 1971 em inglês), uma profunda meditação sobre as mulheres, a guerra, a cultura lésbica e um jeito diferente de ver a história e imaginar o futuro. Sua segunda novela com o então controverso título The Lesbian Body {N.T.: O Corpo Lésbico} (1973, 1975 em inglês), mais uma vez me desafiou como leitora. Ele foi publicado anos antes de qualquer um pensar em escrever sobre o corpo como um tema de estudos feministas ou culturais. Ela também foi coautora do Lesbian Peoples: Materials for a Dictionary {N.T.: Pessoas Lésbicas: Materiais para um Dicionário} com sua parceira Sande Zeig (1975, 1979 em inglês), uma paródia do dicionário que toma a cultura lésbica como seu centro. E finalmente há sua novela Across the Acheron {N.T.: Através do Acheron, um dos rios do Hades} (1985, em inglês 1987), um reescrito do Inferno de Dante, composto próximo a São Francisco. Em 1964 ela ganhou o prestigioso Prix Médicis {N.T.: Prêmio Médici, prêmio literário francês} com sua primeira novela The Opopanax {N.T.: A Opopanax, tipo de planta}. Além de suas ficções inovadoras, ela foi uma contribuidora mor das Questions féministes {N.T.: Questões feministas} e seus ensaios escritos entre 1976 e 1990 foram subsequentemente reunidos em um volume intitulado The Straight Mind and Other Essays {N.T.: A Mente Heterossexual e Outros Ensaios} (1992). Esses ensaios desafiaram quase todos os assuntos contidos no discurso heterossexual. O trabalho dela é tão revolucionário quanto o de qualquer outro iconoclasta — pensando em Martin Luther King, Franz Fanon — passe mais alguns degraus e você irá encontrar Monique Wittig. Embora não seja incomum para uma pensadora clarividente não ser reconhecida em vida, para uma escritora que desafiou consistentemente os padrões por mais de trinta anos, é incomum que ela ainda não seja reconhecida pelo padrão corrente.

Eu tenho que perguntar se é porque ela é uma lésbica e por isso seu trabalho não é considerado como tendo significância cultural. Para mim e outras milhares ao redor do mundo, Monique Wittig permanece uma fonte de inspiração e uma contribuidora extraordinária para a cultura lésbica.

A Política da Cultura
Quando colonizadores conquistam uma terra, seus primeiros registros na volta ao império normalmente contêm alguma coisa ao longo das linhas sobre “os nativos não possuírem cultura’’. Este é um jeito ótimo de desculparem a si mesmos por dominar e desapropriar outras pessoas. Isso também desculpa suas futuras ações de impor a própria cultura e valores deles às pessoas colonizadas para seu próprio proveito. Eventualmente o colonizado começa a acreditar nas mentiras que os colonizadores lhe contam e tomam a cultura imperial na qual eles tiveram que se destacar para se dar bem no mundo.

Lésbicas, no então chamado mundo pós-colonial, permanecem desposadas de sua própria cultura. Muitas permanecem acreditando que as lésbicas não têm cultura. O discurso heterossexual dominante, tal como a do meu colega, perpetua o mito de que não há essa tal cultura lésbica. E a mídia padrão não reconhece o trabalho das lésbicas até que elas estejam bem e verdadeiramente sepultadas e quaisquer outros parentes temerosos às repercussões também já tenham morrido (Virginia Woolf é um exemplo desse ponto; recentemente encontraram prova nos primeiros rascunhos de A Room of One’s Own {N.T.: Traduzido no Brasil como Um Teto Todo Seu} que conta a história completa de Chloë e Olivia; lésbicas têm escrito sobre isso por décadas).

Os colonizadores, homens patriarcais (e mulheres) neste caso, não podem admitir que exista tal coisa como a cultura lésbica porque isso colocaria em questão muito do discurso dominante heterossexual e suas instituições. É um pouco como uma escravidão. Enquanto a escravidão existiu na América do Sul, era possível dizer que os escravos eram incapazes de vida e cultura autônoma. Quando a escravidão é abolida, embora muito do discurso permaneça, aquelas mesmas pessoas passam a ver vistas como capazes de existência autônoma. Onde as lésbicas existem abertamente; isso é um desafio à mentira que as mulheres não podem ter uma existência aquém dos homens; que o mundo das mulheres deve girar em volta do centro que é masculino. Lésbicas, como os antigos escravos, colocam uma ameaça à cultura dominante. Isso não é sugerir que todas as lésbicas e todos os antigos escravos entendem completamente a importância política de sua situação, mas simbolicamente lésbicas são uma ameaça ao discurso heterossexual e às instituições patriarcais e heterossexuais

A Política da Linguagem e Imaginação
A palavra lésbica é poderosa. Quando eu uso a palavra “lésbica’’, eu abranjo a vida completa da lésbica: seu ser emocional, intelectual, criativo, espiritual, moral e político, seu ser físico e social. A lésbica a quem estou me referindo é inspirada por outras lésbicas e que trabalha, quando possível, pelo bem-estar das lésbicas como um grupo. Para a lésbica com políticas radicais, esta não é uma tarefa difícil. Não requer abandonar todas as suas outras relações ou drenar emocionalmente a sustentação de relacionamentos com familiares ou amigas que não são lésbicas. Mas isso de fato inclui examinar essas relações e procurar se elas apoiam ou desafiam a economia política heterossexual. Isso de fato inclui se responsabilizar seriamente como uma lésbica em um mundo lésbico.

“Lésbicas não são mulheres’’ escreve Monique Wittig em 19782, chocando a audiência dela. O que ela quis dizer é que as lésbicas não participam da economia social do ser-mulher. Alguém pode ir às raízes da linguagem para expor isso. A Velha palavra inglesa para mulher: ENTOA “wifmon PL wifmen, é ESPOSA + HOMEM’’ {N.T.: O termo woman, mulher em inglês, é a junção de wife, esposa em inglês, e man, homem em inglês}. Enquanto a palavra chinesa fù, usada para mulheres casadas é formada por nü (mulher) e zhou (vassoura). Isso por sua vez é interpretado como a mulher sendo uma ajudante do homem.3 Como pontua Wittig, a mulher é “o produto de uma relação social’’4 e essa relação é ‘’uma relação social específica ao homem’’. Então, lésbicas não serem mulheres é chocante porque significa que as lésbicas estão fora dos parâmetros de poder que formam a visão heterossexual do mundo, uma visão que não apenas endossa o status marginal das mulheres, mas também garante que isso permaneça dessa forma. A visão de mundo da feminista liberal é também um dos suportes da economia política heterossexual. Se as lésbicas não são mulheres, então como podem as lésbicas apoiar as estruturas de poder que mantêm a economia global? Lésbicas serão deixadas de fora das estruturas configuradas por feministas liberais para convencer a mulher comum que as coisas não estão tão ruins atualmente.

Em um artigo sobre os desafios da pesquisa lesbocentrada, Chris Sitka5 propõe um desafio imaginativo a suas leitoras. Se referindo à imaginação de uma lésbica paleoantropologista vendo as pegadas de três andarilhos, atravessando o Vale do Rift na África a milhões de anos atrás, ela supõe que os andarilhos não são, como normalmente suposto na literatura, um homem, uma mulher e uma criança — frequentemente lida como um homem, sua mulher e sua criança — mas sim que as três andarilhas eram lésbicas. Essa preposição é chocante para os crentes no discurso dominante que não querem negociar com a ideia de que lésbicas podem ser colocadas na aurora da classe humana, na aurora da classe dos homens!6

A Política do Amor
A paixão e o poder de atração estão no centro do amor. Como uma política do amor, a lésbica é vista em espiral, escrevendo seu caminho na história. Lésbicas, lésbicas feministas radicais, são o único grupo a clamar que elas escolheram sua marginalidade. Os homens gays alegam os genes. Aquelas de nós afetadas por alguma deficiência, doença crônica, alegam os genes, o meio ou circunstâncias acidentais. A cultura e o nascimento são as chaves para a opressão de raça e classe. Medo e repressão política causam o voo de volta de alguém para sua terra natal. A lésbica alega o que Nicole Brossard chama de “força de atração’’7. Optar por uma vida definida por uma decisão política — a que uma mulher comete ao viver uma paixão por outras mulheres — é uma decisão grave. Ela envolve imaginação porque pouca de nós têm modelos de uma vida como essa. A imaginação direciona essa paixão que pode por sua vez se tornar uma paixão pela comunidade política, por uma existência criativa, por uma vida marcada pela marginalidade.

Independente das experiências de uma lésbica sobre aceitação e tolerância, nada disso é bom o suficiente. Se o heterossexual me aceita, isso provavelmente significa que eu não estou sendo muito honesta sobre minha sexualidade. A tolerância implica em normatização. Eu vou tolerar você apenas se você vive uma vida suficientemente similar à minha. Vive uma vida que é uma réplica do modelo heterossexual de união. O mundo heterossexual convoca a lésbica a celebrar a cozinha, o lar, o clube esportivo e a família.

A aceitação é um pouco melhor, mas é apenas um degrau acima. Ela nos encoraja a desaparecer, a se misturar com a multidão, a se recusar a falar a partir de nossa perspectiva, nossa experiência. Eu tive experiência em salas repletas de lésbicas onde ninguém falava de lésbica por medo de intimidar alguém. Esse alguém nunca é nomeado e a lésbica permanece invisível.

Nem a tolerância nem a aceitação envolve um reconhecimento da riqueza da cultura lésbica; nenhuma delas inclui o reconhecimento da paixão, da alegria, do desafio que é grande parte da vida de tantas lésbicas.

É como andar em uma corda bamba sobre um abismo escancarado e não ser capaz de ver o outro lado. Viver como uma lésbica pode ser perigoso.

Como afirma Nicole Brossard, “Uma lésbica que não reinventa o mundo é uma lésbica em processo de desaparecimento’’.8 Ela não apenas vai desaparecer, como a cultura das lésbicas desaparece de tempos em tempos através da história por causa da repressão, do medo, da perda de oportunidades. E as lésbicas buscam como nenhum outro grupo reivindicar isso como a história dela, as histórias que mantêm a história viva desaparecem. É como Jovette Marchessault sugere, a “Sepultura da Lésbica Desconhecida’’.9 Mas é uma sepultura que nunca é celebrada. Ninguém vem e permanece em silêncio perante ela. Não é apenas a sepultura da lésbica desconhecida, é uma sepultura sem lugar dedicado para seu enterro. Sem terra, sem mar, sem árvore, sem pedra, onde urubus podem vir para limpar a carne dos ossos. Talvez apenas um fogo, uma pira para todas as lésbicas queimarem como hereges, bruxas e monstros.

A Política do Relacionamento
Para a lésbica, com o objetivo de haver um relacionamento, ela deve encontrar ao menos uma outra igual a ela. Para haver uma comunidade lésbica, ela deve encontrar muitas outras iguais a ela. Nem todas as condições sociais se encaixam a isso. E se não são, então ela deve ser capaz de ao menos imaginar isso como possível.

O que ela deve imaginar? Que ela pode ser amada. Essa é uma tarefa difícil o suficiente para a maioria das mulheres parar por aqui. Mas tem mais. Ela deve imaginar que o amor por ela e o amor dela por outra pode sobreviver ou ao menos valer o esforço, ao invés de todas as sanções contra isso. Sanções as quais variam da simples desaprovação ao exílio e à morte. É qualquer acidente que com a queda das sanções contra a existência lésbica os números de lésbicas existentes e, mais que isso, o número de lésbicas preparadas para clamar publicamente sua identidade lésbica (entre outras) aumentou grandemente nos últimos trinta anos em alguns países ocidentais? O único país no mundo a ter uma legislação que protege as lésbicas tal qual protege os outros (legalmente falando) é a África do Sul.

Então o salto imaginário está talvez levemente reduzido em alguns países, mas isso é dificilmente o caso em uma série de outros países onde o exílio e a morte permanecem como penalidades. A lésbica, para completamente entrar no mundo da existência lésbica, deve imaginar um mundo cheio de imagens lésbicas. Eu não me refiro ao mundo que torna as lésbicas exóticas para a excitação erótica dos homens. Eu me refiro a um mundo onde a lésbica está no mundo e atravessando e afetando o mundo. Essa é uma visão dinâmica da história e cultura lésbica. Isso inclui Sapho, mas não começa com ela. Isso inclui todas as lésbicas que viveram de alguma forma nas mais adversas situações no decorrer da história.10 Nós sabemos sobre algumas delas. Da maioria nós não sabemos nada. Isso também inclui as lésbicas cujos nomes nós ainda não sabemos porque elas estão desenvolvendo e criando novos eventos, novos trabalhos de arte, uma nova política para lançar no mundo. Elas ainda não são publicadas, exibidas, performadas, nem ganham um palco para falar ou cantar.

O mundo lésbico, como o abismo, é insondável. Nós não podemos ver o outro lado e podemos ver apenas partes do que está atrás de nós. Sapho percebeu isso. Como ela escreve no Fragmento 147, “alguém, eu digo para você, pensará sobre nós no futuro’’.11 O mundo lésbico envolve uma grande tarefa de síntese, de entrelaçar as vertentes, de criar uma matriz a partir da deformada e perigosa existência lésbica. Isso é, como pontuado por Margaret Reynolds “Um espaço para preencher as lacunas, ligando os pontos, fazendo algo a partir do nada’’.12

O mundo lésbico amplia todo o caminho através do corpo — de todos os músculos, células e tendões — através de um espiral do tempo/espaço — de cada nano segundo/nano distância para o vasto circuito da curva espaço/tempo através e no meio das galáxias. O mundo lésbico é um multiverso de possibilidades.

O enunciado do mundo lésbico pode ter efeitos profundos. Ele pode destruir amizades, quebrar famílias, criar queda política, social ou econômica. Ele permanece fazendo essas coisas, mesmo no século XXI. Ele pode, de fato, mudar o mundo. O mundo heterossexual. O mundo não-lésbico. Ele pode ter um efeito profundo na forma da realidade.

E o que nós encontramos no uso da linguagem hoje? Nós encontramos a palavra queer que por meio de sua inclusão faz desaparecer as lésbicas. Nós encontramos o termo (e que termo mais esfarrapado é esse) atraída-pelo-mesmo-sexo. E eu pergunto, isso É tudo? Onde está a celebração da cultura que nós encontramos na palavra lésbica e suas ramificações em várias línguas europeias? Onde está a poesia? Onde está a música e as canções? A alegria e ultraje? A braveza e paixão? A linguagem do século XXI está nos fazendo recuar; está nos nublando, ofuscando, e eufemizando para fora desse mundo.

Quanto melhor dizem ser os departamentos governamentais, os políticos temerosos escutam o termo atraída-pelo-mesmo-sexo. Atraída-pelo-mesmo-sexo reduz as lésbicas a um mecanismo de sexualidade robotizada. É sexo coberto de formalina. Sexo sem diversão, sem emoção, sem alegria, sem ao menos os caprichos da desconfiança e traição. Um termo clínico despojado de sentimento que nada faz pela política e culturas lésbicas.

A lésbica pode ser uma espécie de nômade. Frequentemente ela é uma nômade de família. Eu não me refiro a parentesco sanguíneo. Eu me refiro a uma família de amigos, ex-namoradas e conhecidos formados tanto pela localização ou pela afeição. É talvez nesse sentido que Virgínia Woolf estava pensando quando ela escreveu, “Como uma mulher, eu não tenho país. Como uma mulher eu não quero país algum. Como uma mulher meu país é o mundo inteiro’’.13 Leituras colonialistas à parte, essa afirmação — se colocada ao lado da afirmação de Monique Wittig que lésbicas “ ‘escolhem’ ser fugitivas e tentam escapar de sua classe ou grupo… para permanecer em seus próprios pés como uma foragida, uma escrava fugitiva, uma lésbica’’14, — soa com uma nova leitura, um modo diferente de olhar o mundo. Em um mundo onde o nacionalismo está se tornando cada vez mais perigoso, ser uma lésbica é resistir ao impulso do fervor e braveza patriótica para o benefício do mais poderoso.

A Política do Sentido
O que significa fazer sentido? Na linguagem é ter os meios de ter o entendimento dos outros sobre suas sentenças. Mas se a palavra lésbica pode variar de significado da indicação de ser amada por alguém ao ódio que causa apedrejamento, ódio ou auto ódio, como alguém pode falar da lésbica nesse mundo e fazer sentido?

O mundo como operado em uma base diária é dominado pelo discurso heterossexual, e uma vez que tal discurso não pode realmente admitir a possibilidade da existência lésbica (como no caso da Rainha Victoria15 ou da China sob o poder de Mao), então a lésbica deve ser uma sem sentido.

Ou talvez nós possamos supor que o discurso heterossexual sobre a lésbica seja uma antimatéria. Ele deve existir, mesmo que encontrar a prova de sua existência seja extremamente difícil.

O sentido é gerado por meio do discurso simbólico desenvolvido por meio da cultura e da linguagem, a combinação deles — palavras, símbolos e sintaxe — cria a possibilidade de sentido significativo.
O que levaria o discurso lésbico a fazer sentido? Seria necessária uma mudança indiscriminada da percepção, na conceitualização, na linguagem e nas relações de poder.

Como nós poderíamos entender o código simbólico das lésbicas?

Símbolos são como pérolas. Eles concentram diversos elementos em uma única e densa forma. A lésbica “é a fúria da mulher condensada ao ponto de explosão’’.16 A pérola se forma em volta de um pedaço de grão, e vagarosamente, conforme o tempo passa, camadas e camadas de pérolas se sobrepõem neste pedaço de grão até um objeto sólido se formar. Símbolos, da mesma forma, tomam um grão fino de significado e as camadas de significado aderem em volta dele até que haja uma associação fácil entre o símbolo e seu referente.

Na cultura lésbica do começo do século XXI há muitos símbolos positivos da palavra lésbica. Mas isso é uma exceção histórica. Considerando os modos nos quais as lésbicas têm sido simbolizadas. Ela é queimada como uma bruxa. Ela é rotulada como abominação pela Igreja. Ela é morta junto com os judeus e ciganos no holocausto, mas é lembrada ainda mais raramente do que os ciganos. Ela tem sua existência recusada em muitos estados. O que, de fato, a lésbica simboliza? É o medo? Por que ela representa tamanha ameaça? O que há sobre ela que traz essas camadas de significado por volta do grão no centro da pérola?

Há questões não facilmente respondidas ao menos que se esteja preparado para sugerir que pode ter algo relacionado com a masculinidade; com uma ameaça ao poder masculino; com o medo engendrado pelo prospecto das mulheres se amando entre si e criando o próprio sentido delas fora do discurso do sentido dominante heterossexual. Por que mais seria? Isso não pode ser respondido por uma análise de classe, uma vez que as lésbicas estão em todas as classes — da mais pobre até às classes dominantes. Não pode ser sobre cor da pele ou nacionalidade porque as lésbicas (apesar das recusas de alguns) vêm de todo tipo de cultura, de todas as regiões do mundo. Não pode ser sobre o tamanho ou formação do corpo porque lésbicas possuem todos as formas, tamanhos e idades. A única exclusão é ter nascido homem. Muitos dirão: aah, mas isso mudou agora, pois até os homens podem ser lésbicas atualmente. Se é assim, essas lésbicas são as únicas a pagar pelo privilégio de serem lésbicas, e a explicação mais provável é que o capitalismo irá capitalizar toda vontade e desejo e irá mercantilizar até a operação para a transexualidade. Tais desejos podem ser satisfeitos. Mas você me aceitaria como uma pessoa indígena apenas porque eu fiz uma operação para mudar a cor de minha pele? Eu acho que não. A possibilidade de que a transexualidade mtf {N.T.: sigla para male to female, homens que transicionam para mulheres} só pode ser lida como uma simples mudança de sexo se for recusada a existência da cultura lésbica.

Como eu argumentei acima, embora a cultura lésbica tenha o mesmo direito a existir do que qualquer outro grupo cultural, parece ser deveras impensável para muitas pessoas em altas posições que essa existência seja garantida. As lésbicas têm, como os outros grupos, o direito de reivindicar a cultura delas? É esse um assunto de direitos humanos? Se sim, por que ninguém está defendendo a existência da cultura lésbica?

Códigos da Linguagem Lésbica
A boca. Os lábios. A língua. O espaço do discurso, da música e da linguagem. A boca, os lábios e a língua são símbolos chave da lésbica. A associação é óbvia. É o começo de uma série de ressonâncias simbólicas que as poetas lésbicas têm usado.

Eu me referi a isso em “Unstopped Mouths’’, as bocas das lésbicas cujas histórias, poemas e canções não são mais silenciadas. O movimento do discurso e da energia sexual delas é incessante. Como no verso de Monique Wittig em The Lesbian Body, “Você canta sem pausa’’.17 Eu escrevi um poema a algum tempo atrás com a seguinte forma:

Composição: Música para bocas lésbicas

oooooooooooooooooooooooooooooo ooooooooo
oooooooooooooo oo oo oo
O-oo oo-O
O
o o o o o
O O O
oooooo ooo o o
O

De certo modo, esse poema é tanto uma representação humorística da existência lésbica e um comentário sério do uso da linguagem e do simbolismo na poesia lésbica. Como sugere Olga Broumas em seu livro entitulado Beginning with O18 {N.T.: Começando com O}, ou como insinua Monique Wittig ao começar seu livro The Guérillères19 com um O gigante. Enquanto Nicole Brossard escreve: “Eu digo que o texto começa aqui. No buraco…’’20. A letra O, o círculo, o anel, o círculo e o circuito, o retorno circular, o ourobouro, o buraco, é central para o simbolismo lésbico.

Os lábios formam um O quando elas cantam. Os lábios. Os lábios vaginais. Elas fazem o formato de um círculo com suas bocas. Elas fazem sons labiais com o murmúrio dos lábios e a garganta. Minha reflexão sobre códigos quebra aqui porque eu apanho o dicionário e as palavras lábios vaginais e lábil não estão no dicionário mais próximo (The Macquarie Dictionary; o dicionário usado pela maioria das escolas infantis da Austrália; o dicionário que diz as crianças de treze anos que estão descobrindo a linguagem se uma palavra existe ou não, se um mundo existe ou não. O buraco, a letra O que lésbicas se referem é de longe muito assustadora para ser incluída em um dicionário, mesmo os mais alternativos). Eu continuo para ver se qualquer coisa é dita pelos dicionários sobre lésbica. Ele diz, uma fêmea homossexual. Você percebeu que até esse ponto eu não usei sequer uma vez o termo homossexual nas minhas tentativas de definir a lésbica? Por quê? Porque permanece uma parte do discurso heterossexual no qual há homens homossexuais e mulheres homossexuais e a única diferença é a biologia deles. Isso também recusa a cultura das lésbicas. Isso não desafia e não pode desafiar o discurso universal heteronormativo.

A Política do Sem-sentido
O sem-sentido é o que cai fora do mundo do sentido. Para a lésbica é a palavra do discurso heterossexual. Essa palavra é preenchida com homens que estão destruindo o planeta com a guerra, sonhos de imortalidade (certamente isso é sem-sentido), com terror e terrorismo — tanto individuais quanto patrocinados pelo estado. Para a lésbica a chamada ao patriotismo é como a chamada para violentar a si mesma. É por isso que Virginia Woolf se sentiu impelida a encher seus bolsos com pedras e entrar no Rio Ouse? O patriotismo para a lésbica política não é um refúgio. Ao invés disso, é uma violação.

Como traidoras do sistema patriarcal, como desleais à (in)civilização da heterossexualidade, as lésbicas são elas mesmas refugiadas dessa economia política.

Mary Daly21 descreve o processo pelo qual o sensato se torna sem-sentido e o sem-sentido se torna sensato como estratégia política do “reverso’’. Quando o discurso dominante se engaja ele reivindica o mundo do sentido para si mesmo. Sob o poder desse regime a probabilidade de o planeta ser destruído, milhões de pessoas morrerem ou viver na pobreza extrema e o sem-sentido de algumas pessoas muito ricas que possuem recursos demais para saber o que fazer além de construir armas de destruição em massa para atirarem uns nos outros, é reivindicado como sensato. O contrário disso é culpar as lésbicas por essa destruição, como Jerry Falwell fez depois do 11 de setembro de 2001.22 Não vamos nos preocupar com os fatos. Não vamos perguntar quais lésbicas têm roubado aviões para voar na direção de prédios altos? Quais lésbicas têm acesso a plutônio enriquecido? Quais lésbicas têm um exército em seu comando? Mas as lésbicas possuem as qualidades monstruosas delas. Atualmente as lésbicas são terroristas.

Ninguém tem orgulho de terroristas e, como escreve Gillian Hanscombe, “Ninguém tem orgulho de lésbicas’’.

Ninguém tem orgulho de lésbicas (famílias, vizinhos, amigos, colegas de trabalho, patrões, professores, orientadores, universidades, sociedades literárias, qualquer nação, qualquer governante, qualquer benfeitor, qualquer padre, qualquer terapeuta, qualquer advogado). Apenas outras lésbicas têm orgulho das lésbicas. As pessoas dizem viva e deixe viver, mas por que deveríamos?23

De Sybil: The Glide of Her Tongue {N.T.: Sybil: O Deslizar da Língua Dela} (1992).

Eu ainda não comecei a contar uma fração do conteúdo da cultura lésbica. Eu ainda não mencionei o Sakhiyani24 de Giti Thadani. Eu não toquei no nüshu25 ou nas resistentes ao casamento da China26; nem as vidas das lésbicas no Japão27 e na China28 ou as batalhas das mulheres na Alemanha Nazista29 e atualmente no Zimbábue30. Eu não mencionei a mestiça de Gloria Anzandúa31 e o trabalho de lésbicas de culturas indígenas32, nem o trabalho de Audre Lorde33. Eu não mergulhei nas histórias de Judy Grahn34 sobre códigos lésbicos nem explorei a riqueza metafórica do Lifting Belly {N.T.: Elevação da barriga} de Gertrude Stein35. Há uma veia grandemente rica de material de muitas culturas e épocas. Mas isso terá que ficar para outro dia.

Você tem orgulho das lésbicas? O que você irá responder na próxima vez que alguém perguntar se há essa tal cultura lésbica?

1 Veja “Unstopped Mouths. In Susan Hawthorne, Cathie Dunsford and Susan Sater (eds.) Car Maintenance, Explosives and Love and other lesbian writings. Melbourne: Spinifex Press: 120–127. Veja também “In the Convents”. Heat 7 1998: 159–162. E “In the Prisons”. In Sue Moss and Karen Knight (eds.). 2001. Interior Despots: Running the Border. Lauderdale: Pardalote Press: 79–84. Veja também meu ensaio “Unstopped Mouths and Infinite Appetites: Developing a Hypertext of Lesbian Culture.” In Susan Hawthorne and Renate Klein (eds.) 1999. CyberFeminism: Connectivity, Critique and Creativity. Melbourne: Spinifex Press: 384–405. “Unstopped Mouths” foi também adaptado para encenação em 1997 e encenado pelo POW no Teatro Pit, FCAC.

2 Monique Wittig. 1992. “The Straight Mind” (1980). In The Straight Mind and Other Essays. Boston: Beacon Press.

3 Barbara Niederer. 1995. “Women in Chinese Script”. In Anna Gertslacher e Margit Miosga (eds.) China for Women: Travel and Culture. Melbourne: Spinifex Press. 7–11.

4 “One is Not Born a Woman” (1981) in The Straight Mind.

5 Chris Sitka. 1991. “A Paper in the Life of a Lesbian Researcher”. Journal of Australian Lesbian Feminist Studies. Vol. 1, №1.

6 Para uma consideração disso veja Susan Cavin. 1989. Lesbian Origins. San Francisco: Ism Press. Cavin examina a hipótese de que a existência lésbica na verdade teve um impacto significante na natureza da cultura humana desde seu início.

7 Nicole Brossard. 1988. The Aerial Letter. Toronto: Women’s Press.

8 Aerial Letter. Na p. 136 Brossard usa a palavra “mundo’’ nessa citação, mas em uma citação quase idêntica na p. 122 ela usa “palavra’’ no lugar.

9 Jovette Marchessault. 1985. Lesbian Triptych. Toronto: Women’s Press.

10 Veja Janice G. Raymond. 1991. “Putting the Politics Back into Lesbianism.” Journal of Australian Lesbian Feminist Studies, Vol. 1, №2. {N.T.: É possível encontrá-lo traduzido aqui: https://medium.com/@jessicaribeiro_57883/trazendo-a-pol%C3%ADtica-de-volta-ao-lesbianismo-65ba0f12ee7a }

11 Sappho. Fragment 147. Citado em Margaret Reynolds. 2000. The Sappho Companion. London: Vintage. (392).

12 The Sappho Companion.

13 Virginia Woolf. 1938. Three Guineas. New York: Harcourt Brace Jovanovitch (1966 edition).

14 Monique Wittig. 1992. Prefácio para The Straight Mind and Other Essays. Boston: Beacon Press.

15 Veja Sheila Jeffreys. 1997. The Spinster and Her Enemies. Melbourne: Spinifex Press.

16 Radicalesbians. 1070. “The Woman-Identified-Woman”. In Rosemary Silva (ed.) Lesbian Quotations. Boston, MA: Alyson Publications. 18.

17 Monique Wittig. 1975. The Lesbian Body. London: Peter Owen. 19

18 Olga Broumas. 1977. Beginning with O. New Haven and London: Yale University Press.

19 Monique Wittig. 1972. The Guérillères. London: Picador. The Aerial Letter.

20 The Aerial Letter.

21 Mary Daly. 1978. Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism. Boston: Beacon Press.

22 Robin Morgan. 2002. “Week One: Ghosts and Echoes”. In Susan Hawthorne e Bronwyn Winter (eds.) September 11, 2001: Feminist Perspectives. Melbourne: Spinifex Press.

23 Gillian Hanscombe. 1992. Sybil: The Glide of Her Tongue. Melbourne: Spinifex Press.

24 Giti Thadani. 1996. Sakhiyani: Lesbian Desire in Ancient and Modern India. London: Cassell. Também para uma vida lésbica contemporânea veja Suniti Namjoshi. 2000. Goja. Melbourne: Spinifex Press

25 Cathy Silber. 1995. “Women’s Writing from Hunan”. In Anna Gertslacher e Margit Miosga (eds.) China for Women: Travel and Culture. Melbourne: Spinifex Press. 12–19.

26 Janice Raymond. 2001. A Passion for Friends: Toward a Philosophy of Female Affection. Melbourne: Spinifex Press.

27 Para um olhar contemporâneo na vida lésbica japonesa veja Marou Izumo e Clare Maree. 1999. Love Upon the Chopping Board. Melbourne: Spinifex Press.

28 Anchee Min. 1994. Red Azalea. London: Victor Gollancz.

29 Erica Fischer. 1996. Aimée and Jaguar. London: Bloomsbury.

30 Tsitsi Tiripano. 2000. “Fighting for Lesbian and Gay Rights in Zimbabwe”. Off Our Backs. Vol. 30, №4. April. 1, 6–7.

31 Gloria Anzaldúa. 1987. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Spinsters/Aunt Lute.

32 Paula Gunn Allen. 1986. The Sacred Hoop: Recovering the Feminine in American Indian Traditions. Boston: Beacon Press; Ngahuia Te Awekotuku. 1991. Mana Wahine Maori: Selected Writings on Maori Women’s Art, Culture and Politics. Auckland: new Women’s Press. Veja também os romances em Cathie Dunsford’s Cowrie series, Spinifex Press.

33 Audre Lorde. 1984. Sister Outsider. San Francisco: Spinsters Ink.

34 Judy Grahn. 1984. Another Mother Tongue: Gay Words, Gay Worlds. Boston: Beacon Press. Judy Grahn. 1985. The Highest Apple. San Francisco: Spinsters Ink.

35 Gertrude Stein. 1989. Lifting Belly. Tallahassee, FL: Naiad Press. Veja também Judy Grahn. 1989. Really Reading Gertrude Stein. Freedom, CA: The Crossing Press.

 

texto maravilhoso!!!!!!

 
   

eu amo esse texto!!