Ainda Rachando (sobre exposições virtuais de mulheres)

texto sobre relações entre mulheres no movimento, principalmente os danos do ativismo virtual e as ondas de ódio online http://radfem.info/ainda-rachando/

AINDA RACHANDO

“A irmandade é poderosa. Ela mata. Majoritariamente irmãs.”
– Ti-Grace Atkinson

Fui lembrada desse ensaio hoje, publicado pela primeira vez em 1976. A autora, escrevendo do meio da Segunda Onda do ativismo feminista, descreve em detalhes desoladores o dano psicológico a longo prazo infligido nas mulheres no coração daquele movimento, pelas relações que deveriam justamente nutri-las, ampará-las e libertá-las. Na primeira vez que encontrei esse ensaio, enquanto estudante da graduação com um vago interesse na história da Segunda Onda mas sem nenhuma experiência direta própria em ativismo feminista, li-o com uma certa fascinação perplexa e desconectada, incapaz de compreender como mulheres podiam fazer isso umas com as outras, ou o que poderia explicar essas dinâmicas devastadoras. Hoje, tendo testemunhado a última rodada brutal e implacável de racha direcionado a uma amada amiga minha, e tendo sido alvo disso ontem mesmo, a familiaridade disso tudo torna esse texto quase doloroso demais para ser lido de novo.

Há um certo pequeno conforto a se tirar da percepção de que nada disso é novo: que minha geração não é unicamente não-saudável ou disfuncional, que não somos incomumente incapazes de demonstrar solidariedade e irmandade umas pelas outras, que essas feministas fenomenais, intrépidas e destemidas cujos escritos e ativismo eu admiro tanto sofreram muito das mesmas tristezas que eu sofro, e iriam empatizar com minha dor. Mas isso é acompanhado da tristeza real de que quase quarenta anos depois que o artigo de Joreen foi publicado, fizemos tão pouco progresso. Estamos repetindo os mesmos erros de nossas ancestrais. Outra geração de mulheres brilhantes, comprometidas e apaixonadas está se desgastando. Sendo morta pelo poder da irmandade.

Todas as tendências que Joreen descreve ainda existem. Ainda rachamos mulheres pela frente, e também pelas costas. Ainda ostracizamos. Ainda denunciamos. Ainda damos falsos relatórios sobre as coisas horríveis que outras mulheres disseram ou fizeram. Ainda interpretamos umas às outras impiedosamente. Ainda temos expectativas ridículas e não-razoáveis umas das outras e usamos isso para justificar a raiva e o abuso onde eles não se justificam. Ainda julgamos umas às outras como culpadas por associação, e vemos amizades e relacionamentos como origem de mácula. Ainda nos juntamos para rachar mulheres como nós, usando-as como escudos para desviar a atenção de nós mesmas. Ainda sussurramos nosso apoio ao alvo da vez via canais fechados, mas não falamos nada publicamente, por medo de ser a próxima da fila. Ainda mascaramos a brutalidade disso tudo atrás do véu da “crítica legítima”.

Claro que agora temos todo um conjunto de novas vias através das quais expressamos essas tendências. Nós blogamos. Reblogamos. Twittamos. Subtweetamos. Storifycamos. Printamos. Chamamos atenção. Nós nos aglomeramos. Mobilizamos nossos seguidores. Parodiamos. Fazemos doxxing. Essa coisa de racha se tornou algo muito mais em tempo real, e muito mais inescapável. Se você está envolvida no feminismo online nos últimos dois anos, você quase que certamente já experienciou essa onda de pânico, o pavor doentio e o pulso acelerado, quando seu telefone explode e suas notificações se exaurem, mensagem atrás de mensagem aparecendo para te dizer que ser humano abominável você é. (Desenvolvemos um novo verbo irregular para descrever o que tipicamente acontece no fim dessas aglomerações: eu dou um tempo do Twitter; você desativa a conta por auto-cuidado; ela esperneia.)

Como Joreen, fico preocupada de lavar nossa roupa suja em público — me deixa triste pensar nos homens rindo de nós enquanto assistem a nós nos despedaçando. Somos todas bem versadas nesses estereótipos sexistas de brigas de mulher e mulheres barraqueiras e “vocês não acham que as mulheres são seus piores inimigos?”, e nós sabemos que cada um desses rachas públicos age de acordo com, e reforça esses estereótipos. Mas quero reiterar o ponto que Joreen apontou em 1976 — nada disso é peculiar ao feminismo. Nada disso é específico das políticas ou das relações das mulheres, e ainda que as pessoas pensem que é, é porque aceitaram esses estereótipos sexistas, e aprenderam a desconsiderar os conflitos entre mulheres como sendo brigas histéricas, enquanto tomam os conflitos entre os homens como sendo indicativos de discordâncias políticas substanciosas sérias. Muitas dessas tendências são exacerbadas pelo fato de que somos mulheres — nossa socialização feminina geralmente não nos prepara para passar pelos conflitos e discordâncias de forma leve, e nossa marginalização política significa que podemos ser inexperientes em organização política comparadas aos homens. (Por outro lado, quando brigamos umas com as outras, nações não entram em guerra). Mas as questões psicológicas e estruturais que causam essas fraturas políticas estão presentes não apenas na política feminista, mas nas políticas de esquerda e progressista em geral.

Em nível individual, o que se encontra na esquerda são pessoas que tendem a ser movidas pelos princípios e convicções, e que têm forte comprometimento moral sustentando suas posturas políticas. Então os tipos de mulheres que são levadas ao feminismo são os tipos de mulheres que têm princípios políticos firmes e fortes a que elas são apaixonadamente comprometidas, e que não raro fazem parte de sua identidade e auto-percepção. Por esse motivo, elas geralmente não estão dispostas a desviar desses princípios para se comprometerem com aqueles com quem elas discordam. Uma vez que princípios políticos são uma questão de convicção moral e identidade pessoal, muitas feministas, e esquerdistas em geral, preferem se afastar do movimento a se desfazerem de seus princípios mesmo que minimamente para cooperarem com pessoas cujos princípios são marginalmente diferentes dos seus. Essa convicção — junto com um bocado de narcisismo em pequenas diferenças — resulta em um deslize inevitável em direção a políticas puristas, onde os indivíduos se tornam mais preocupados em manter suas mãos limpas e suas almas livres de poluição a realmente efetuarem uma mudança real no mundo com que dizem se importar. E uma vez que sua doutrina se tornou mais uma questão de salvação pessoal que teoria política, se torna fácil ver aquelas com quem você discorda não apenas como equivocadas, mas como perversas, más, perigosas. Denúncias e ostracismo são justificados, porque as incrédulas são uma ameaça à pureza da doutrina e à própria identidade, e devem ser impedidas.

Isso combina mais com características estruturais de uma situação em que esquerdistas se encontram — ou seja, o fato de que o sistema é tão completamente injusto, os problemas são tão aparentemente intransponíveis e a mudança que se quer fazer no mundo parece tão profundamente impossível de se realizar que um tipo de desespero e desânimo se abate. A vitória é tão intangível e além do alcance dos esquerdistas, dado que a mudança desejada é nada mais que a completa transformação do panorama político e social. Como feministas, queremos acabar com a violência masculina contra as mulheres, eliminar a exploração do trabalho feminino, e abolir as normas opressivas de gênero. Esses objetivos estão muito longe do nosso alcance, e as vitórias em geral parecem poucas e distantes umas das outras, então não há muita oportunidade para comemorar, ou o sentimento de satisfação e gratidão de uma batalha ganha. Mas enquanto não podemos vencer a guerra contra o patriarcado, estamos a uma distância razoável de vencer a batalha contra nossas amigas. E independente de ganharmos ou não essas batalhas, nós certamente temos algum tipo de resposta; enquanto o patriarcado permanece imóvel diante da nossa fúria, brigar com uma irmã a respeito de alguma discordância pequena é garantia de se conseguir algum tipo de reação. Não surpreende então que desferir socos em nossa irmã seja uma opção mais gratificante e atraente que continuar a bater desesperada e desapercebidamente em nosso inimigo mútuo.

Então, o resultado é que aqueles à esquerda são frequentemente levados a brigar e se rachar, em vez de trabalhar juntos para tentar derrotar seu inimigo comum. E incorporada a essa política progressista está uma justificativa ostensiva de se selecionar um alvo, na forma de um profundo comprometimento com a igualdade e um inerente desprezo pelo poder e pela autoridade. Um dos aspectos mais característicos das ideologias políticas de esquerda é um comprometimento com a igual distribuição de poder e o desmantelamento de hierarquias estabelecidas, e o feminismo não é diferente nesse aspecto — desafiar o poder dos homens sobre as mulheres, assim como desafiar as dinâmicas de poder de raça e classe dentro do nosso próprio movimento, é essencial ao ativismo feminista. Mas uma implicação desse igualitarismo e rejeição de hierarquia é a suspeita insidiosa de qualquer pessoa que obtenha status ou sucesso fora do movimento. Qualquer pessoa na esquerda que consiga alcançar alguma influência política se torna instantaneamente um alvo válido para racha, pois sua influência (ou “plataforma”) é vista como um tipo de privilégio que o movimento se dedica a desmantelar. Para as mulheres, isso é exacerbado pelos estereótipos sexistas a respeito da mulher poderosa: ela é insolente, uma castradora, ela não é feminina nem fodível.

O desfecho disso tudo é que qualquer mulher que demonstre ter algum talento, ambição e determinação e que tenta conseguir algum poder e influência no que ainda é um mundo de homens pode estar desenhando em suas próprias costas um alvo. Ela é um objeto perfeito para se rachar, porque fez o que outras mulheres não conseguiram, e arrumou para si um lugarzinho nesse ambiente dominado por homens. Nada mais pode explicar porque tanta virulência feminista é direcionada ao punhado de mulheres de poder e influência na mídia e na academia, e não aos homens que detém a estrutura de poder e privilégio. Não importa que ela use seu poder para ajudar outras mulheres a avançarem. Não importa que ela tenha noção de que a sorte e o privilégio ajudaram-na a chegar ao sucesso. A mulher com poder e influência é perfeita para se rachar, e será acusada de atropelar os outros em seu caminho em direção ao topo, independente de isso ser ou não verdade. E ao fazer isso, estamos implicitamente dizendo às mulheres que não é feminista ser bem sucedida, ter poder e influência, mesmo que você possa usar esse poder e influência para avançar causas feministas. A coisa mais feminista que você pode fazer é sentar-se e calar a boca. Mas a consequência disso não é uma ruptura do poder estabelecido. A consequência disso é que homens continuam tendo esse poder.

Não tenho nenhuma solução para isso.Acho que esses aspectos explicam porque movimentos de esquerda em geral tendem a conflitos internos, fratura e dissolução, e são parte da razão do porquê a esquerda se despedaça em frangalhos, enquanto a direita apenas toca o barco e consolida seu poder. Também penso que enquanto feministas temos o direito de desafiar as relações de poder e hierarquias estabelecidas, e de manter nossas teorias e ativismo sob escrutínio e reflexão críticos. Mas quarenta anos depois de nossas ancestrais feministas escreverem pela primeira vez a respeito disso, estamos ainda nos despedaçando, e nosso inimigo comum se regozija enquanto isso. Mulheres inteligentes, gentis e compassivas estão se ferindo nessa guerra, e vamos perder nossas brilhantes e melhores vozes enquanto muito poucas mulheres têm estômago para esse infinito, implacável racha e assassinato de reputação daquelas do seu próprio lado.

Como Joreen, experienciei isso por tempo suficiente para que me prejudicasse psicologicamente, me ferisse enquanto pessoa e minasse minhas capacidades enquanto feminista. Independente de isso ser comum, eu não sei, mas fui alvo por vezes o suficiente no passado de modo que isso me dói menos quando é direcionado a mim pessoalmente; o que realmente me aflige agora, o que me faz verter lágrimas de raiva e frustração, é ver isso acontecendo com mulheres que amo. Não estou escrevendo isso para buscar simpatia e compaixão. Nem quero terminar esse texto com uma chamada banal e simplista por solidariedade e coesão em nosso movimento fraturado. Minha aposta é que ou você se atrai por esse tipo de idéia ou não se atrai; se não se atrai, nenhum montante de blogagem angustiada e desanimada vai te fazer mudar de idéia. Quero acreditar que apesar de nossas muitas diferenças e da multiplicidade de experiências que trazemos para a discussão, há comunalidade suficiente entre as mulheres para nos tornar um movimento de classe politicamente coeso capaz de trabalhar em conjunto e formar uma comunidade entre nós.

Se você não se sente assim a meu respeito, respeito seu direito de se organizar sem mim, e te desejo o melhor. De minha parte faço aqui as seguintes promessas:

Não participarei em rachas, não importa o quão pouco eu goste da mulher em questão, ou o quanto eu discorde de suas políticas
Assumirei que outras mulheres agem de boa fé e interpretarei suas posições de forma caridosa
Celebrarei quando uma mulher alcançar sucesso de qualquer tipo — e se eu realmente não conseguir comemorar, guardarei meu desapontamento para mim mesma
Colocarei o bem estar das mulheres e o progresso de nossos objetivos comuns acima da minha pureza pessoal
Imagino que esse post me tornará impopular. Que o meu racha comece!


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(Texto publicado originalmente no blog More Radical With Age. Traduzido com permissão da autora.)

 

compartilhei em grupos de ginecologia feminista porque eu penso que este texto faz pensar muito sobre a questão de auto-cuidado. a questão que fica pra mim é, como cuidar-se nesse contexto? feminismo online pode ser devastador psicologicamente.

 
 

Eu só curti a primeira parte desse texto.

“Qualquer pessoa na esquerda que consiga alcançar alguma influência política se torna instantaneamente um alvo válido para racha, pois sua influência (ou “plataforma”) é vista como um tipo de privilégio que o movimento se dedica a desmantelar. Para as mulheres, isso é exacerbado pelos estereótipos sexistas a respeito da mulher poderosa: ela é insolente, uma castradora, ela não é feminina nem fodível.

O desfecho disso tudo é que qualquer mulher que demonstre ter algum talento, ambição e determinação e que tenta conseguir algum poder e influência no que ainda é um mundo de homens pode estar desenhando em suas próprias costas um alvo. Ela é um objeto perfeito para se rachar, porque fez o que outras mulheres não conseguiram, e arrumou para si um lugarzinho nesse ambiente dominado por homens. Nada mais pode explicar porque tanta virulência feminista é direcionada ao punhado de mulheres de poder e influência na mídia e na academia, e não aos homens que detém a estrutura de poder e privilégio. Não importa que ela use seu poder para ajudar outras mulheres a avançarem. Não importa que ela tenha noção de que a sorte e o privilégio ajudaram-na a chegar ao sucesso. A mulher com poder e influência é perfeita para se rachar, e será acusada de atropelar os outros em seu caminho em direção ao topo, independente de isso ser ou não verdade. E ao fazer isso, estamos implicitamente dizendo às mulheres que não é feminista ser bem sucedida, ter poder e influência, mesmo que você possa usar esse poder e influência para avançar causas feministas. A coisa mais feminista que você pode fazer é sentar-se e calar a boca."

Essa parte do texto, eu achei muito, mas muito forçar a barra. Não é só por “inveja” que as mulheres entram em conflitos. Não é só porque alguém tem influência e elas supostamente querem essa influência que acontecem os conflitos. Acho que isso é reduzir os conflitos que existem em meios feministas de uma forma simplista, e até patriarcal. Porque sempre que alguém fala de conflito entre mulheres fala de inveja, fala de orgulho, fala de “querer estar no poder”. Muitas vezes mulheres entram em conflito justamente por não quererem estar no poder e outras mulheres estarem no poder e se vangloriar desse poder ou se utilizarem desse poder para subjugar umas às outras. Eu não quero nenhuma mulher no poder, quero que ele acabe. e isso é motivo de muitas tretas que acontecem no meio feminista, principalmente nos meios feministas ditos de esquerda. Parece que é sempre só sobre isso, sempre só sobre quem detém ou não detém, quem pode e quem não pode. E também não é só sobre isso. É sobre contextos diferentes, vivências diferentes que não se batem, lutas diferentes, racismo, lesbofobia, entre outras coisas. Acho que o principal motivo de tanta treta é porque não respeitamos e não entendemos as nossas diferenças, que não somos iguais, que muitas vezes não lutamos pelas mesmas coisas.

 
 

interessante seu ponto, acho que faz sentido. os textos sobre hostilidade horizontal, trashing, costumam falar mesmo muito disso, ‘mulheres que demonstram algum poder são sabotadas’. Sempre é essa linha de raciocínio. E também me incomoda como elas colocam que as que sofreram trashing eram justamente aquelas que tinham alguma ‘liderança’, validando essa palavra como algo de repente bom.

Mas aí eu entendo “Poder” não como o exercício de influencia sobre outras, ou a força sobre outras. Eu vejo “Poder” no sentido de “potência” mesmo. Daí é interessante ver daonde que essas radfem dos 70 e 80 trazem esse conceito de poder, do contexto cultural e político delas. Os movimentos reivindicavam Poder, “Poder ao Povo Preto” (Power to the Black People), “Poder Popular”, “empoderamento”…. foram palavras criadas neste momento.

E cara, eu lembro de uma teórica radical que escreveu sobre isso. Ela escreveu sobre essa noção de Poder feminista. Acho que era a Mackinnon. Putz é uma lástima eu não lembrar porque facilitava entender qual o conceito delas, porque tradução tem essas problemáticas de interpretação variada também. Se eu achar eu posto esse texto porque explica o que as feministas enxergam como Poder. Daí tem aquelas problemáticas que vc conhece, panorama marxista do surgimento dessa teoria e também o quanto marxismo (leninismo) influenciou esses movimentos sociais dos EUA na ausência de difusão da literatura anarquista (os mesmos foram derrotados na URSS e viviam exilados e pobres, e a URSS espalhava sua literatura ideologica pelo mundo, os movimentos viam realmente a URSS como um referente e passavam a estudar sua revolução).

Eu entendo você porque eu também estou contra o Poder, como anarquista. Mas eu realmente enxergo a palavra “Poder” aqui no sentido de potência, de capacidades, de acúmulos, de criatividades, de fazeres… e isso acredito que ocorra sim, também por mecanismos de grupos. A psicologia de grupo mapeou algumas posiçoes que se repetem nos grupos: bode expiatório, instigador e sabotador, e o diretor que geralmente é primeiro endeusado pelo grupo depois ele é decapitado pelo mesmo, os psicologos de grupo conhecem essas dinâmicas. São coisas que se dão no campo de projeções e fantasias (tem um aspecto psicologico sim nisso tudo). E uma pessoa que é proponente, que pode ameaçar a coesão e estabilidade grupal, por exemplo uma pensadora, uma pessoa que propoe o novo, ela é linchada, isso na historia sempre foi assim… porque aí é vista como uma ameaça… e os encontros de diferenças trazem desestabilizações e reações defensivas agressivas…

Sobre o termo ‘liderança’ nos textos, eu entendo não como necessariamente legitimação de que alguém governe um grupo ou decida por ele. Mas acredito que sim existem nos grupos pessoas que puxam mais, que agitam mais, que fazem mais também, que acabam sendo responsabilizadas. Até porque fomos educadas num sistema autoritário e desresponsabilizar-se é cômodo, deixar tudo na mão de alguém… então as lideranças não são somente forçadas pela pessoa em questão onde se vê essa característica, mas são criadas pelos grupos, quando não assumem postura ativa e autônoma de participar num processo coletivo…. sei que tem questões que diferenciam esse acesso, pessoas mais tímidas, o acesso menor à desenvolver-se como militante do que uma pessoa que tem apoio financeiro da família, que é branca, um exemplo vemos os homens que tem mais capacidade de fala que as mulheres… essas diferenças realmente existem como vc apontou. Mas nem sempre é só isso, não vamos apagar agência das pessoas também… em não tomar papel pro-ativo num processo… pois ser proativo e responsável sabemos que não é o que a maioria gosta, ter voz também, posicionar-se… estamos numa era do cada um por si e é melhor não se expôr…. E de repente no movimento sim, eu observo que mulheres que tem um trabalho, que puxam coisas, que agitam, elas também se tornam alvo de racha, porque é ela que é visível, é ela que tá sendo responsabilizada e vista, ela é vista nesse sistema autoritário como a que ‘está por trás’ de um grupo, isso a gente vê ocorrer… e tem grupos que tentam ser visíveis juntos, e tem grupos que simplesmente jogam nas costas dessa pessoa…. e acho que qualquer pessoa que tenha militado em alguns espaços políticos pode observar isso….

 
 

Eu acho bem legal trazer esse apontamento. Eu também não concordei com tudo da autora, e tal. Mas acho que elas vêm tentando fazer análises e achar respostas pra essas questões… do por que mulheres se violentam tanto, por que a militância feminista é especialmente violenta. E isso não é loucura, no mundo todo, sempre escuto ativistas falando que o movimento no seu país é violento,que se afastou dele, ou que tem medo de entrar muito nele. Ouvi isso de feminista do México recentemente, da Argentina, e da França, mulheres que ou não quiseram entrar na militância feminista ou que saíram recentemente dela e decidiram levar uma vida comum e anônima. E mulheres que militam não somente no feminismo mas em outros movimentos, me dizem: o espaço mais tóxico veio sendo o feminista. Por que estamos ouvindo esses relatos? Será que é excesso de julgamento em cima de mulheres? Será que é por que esperamos demais do feminismo e o idealizamos?

De qualquer forma, se as diferenças entre mulheres levam à conflitos, será que justifica a dimensão que alcançou? Será que uma exposição online se justifica nesse caso? Eu acredito que não, que exposição é uma atrocidade e não contribui em nada para esses debates importantes, ele apenas gera psiquês destruídas e perda de pessoas que poderiam somar, num tempo que a sociedade tá numa guinada a direita assustadora (e não sei se esse cenário não significa que nosso movimento também anda afetado pelo facismo). Eu acho que exposição talvez se justifique em casos extremos porque ela surge pela nossa falta de recursos e de crença na justiça penal burguesa e patriarcal, esses recursos foram inventados pela nossa falta de alternativa para lidar com agressores homens que são convictos, que fazem atos intencionais, pensados, realmente bárbaros, que o fazem por uma questão estrutural de poder que querem manter e afirmar… a gente fez isso na falta de que organizações responsabilizassem e afastassem agressores (e agressão aqui to falando de atos realmente atrozes, não de uma mulher estourar com a outra que pode até ser agressivo mas acho que pode ser manejado em outro nível). Agora a exposição como vêm ocorrendo, é irresponsável, banaliza nossos recursos frente à violência masculina, banaliza a discussão de violência, numa tendência de pós-modernismo, de dissolver os significados das palavras de maneira irresponsável…

Eu acho que não se justifica, na maioria dos casos é muito arbitrária, não dá pra omitir questões pessoais envolvidas, acho que qualquer denuncia que haja no mínimo deveria ter exposição dos fatos também, o qeu a torna na verdade, rumor, nada além disso. É um ‘ouvi dizer que fulana foi exposta como____’. E dizer que é rumor não é deslegitimar nenhum apontamento (usam a palavra ‘DENUNCIA’ e não ‘APONTAMENTO’, ‘CRÍTICA’, ‘DIVERGÊNCIA’, perceberam? O vocabulario é policial, penal… as minas atuam como policiais e vigilantes… criando até situações falsas e difundindo interpretações como verdades), mas é porque é isso, não é uma crítica fundamentada, você ouve uma história e a palavra é chocante, como colocado no texto, ‘falsos relatorios de coisas horriveis que alguém fez’, qual a intenção senão destruir a possibilidade daquela pessoa de atuar, se tudo hoje está resumido à tentativas de manchar reputações de outras? Será que é tudo mesmo apontamento honesto, ou são conflitos, mágoas não resolvidas, divergências dramáticas, incapacidade de discordar sem envolver o sentimental e sim manter no ambito da discordancia teorica e politica? Será que não é individualismo, 3a onda, ‘o pessoal é político’ mal interpretado?

Primeiro que acho que nem tudo tem que ir a público, eu não acho que fortalece contextos coletivos… hoje todas relações e militância se tornou um Big Brother onde todo mundo assiste pelo facebook e espera os proximos capitulos… e eu não acho essa conduta anarquista ou de cultura de segurança sabe? Quem pode se apropriar disso sabe? Nossos inimigos por exemplo, ver a fragilidade das nossas organizações?

E emfim, precisaria haver um reconhecimento coletivo dos danos psicologicos desses procedimentos. Qual o ganho político disso? Uma pessoa devastada psicologicamente, eu conheço várias pessoas que até trancaram curso por causa de exposição online, de linchamento ativista. Mina lésbica que saiu de cidade do interior fazer faculdade, se envolve com alguém de movimento, as relações todas agora terminam em “denúncias” (a palavra só revela a mentalidade penal dessa sociedade e seus estragos) públicas no face, a mina sai devastada, o que isso não afeta autoestima, destrói autoconceito? Eu uso sim a palavra traumático, desde minha competência como profissional de saúde mental, porque o que observo é a repetição e insistência daquele tema, daquele significante, a pessoa só fala daquilo, daquele evento violento… e o pior dessa vítima é que a diferença da vitima de violencia domestica ou de abuso infantil (que ainda tem pouco reconhecimento social esse tema, do jeito que deveria ter que pra mim seria o jeito feminista mesmo de politica masculina e nao o sensacionalista) ela é uma vítima que não pode nomear sua situação como violencia… porque a violenta é ela! É ela que tem que se massacrar se acreditando a pior pessoa do mundo, é ela que é levada a pensar que a única saída é o suicídio… e isso é feito com uma ativista, alguém que se preocupa com não ser uma pessoa que faz dano à alguém, diferente de um agressor que justamente não tem empatia por mulheres nem quer ter. E isso é violencia, quando utilizamos discussão feminista para ferir justamnete no ponto que é importante para a outra… detonar seu autoconceito e fazer ela se sentir uma pessoa ruim, má, terrível e que não merece viver, que somente sua desaparição poderá limpar o movimento de seu Mal… emfim bastante cristão… caça as bruxas, bode expiatorio, expia o mal naquela pessoa…. pra se sentir pura e santa… já que esse arquetipo nos coloniza fortemente como mulheres… as boas mães.

Essa vítima é desolada, não tem menor condição de nomear sua situaçao nem de contar com empatia e apoio de um contexto para se recuperar.

Carregamos cartazes em marchas e postamos relatos com tag de “violencia psicologica”, mas toleramos violência doméstica e psicologica atroz dentro dos movimentos. (Acredito que como mulheres não sao socializadas para exercer agressão física, elas exercem a violência psicologica com bastante habilidade, e o fato de sua figura ocultar a figura tradicional de um agressor, isso passa batido, resta à vitima duvidar se está louca mesmo). O gaslight é constante, a devastação psicologica, a manipulação…. é contraditório. Somos como mulheres que não saem duma relação de violência, que não vêem e não querem enxergar, repetimos a situação de maltrato na nossa relação com movimento, porque não vemos aonde mais poderiamos ir, e sentimos que a culpa é nossa, assim como a vitima de violencia domestica.

Olha mano, eu sei que não ocorreu nenhum suicídio AINDA, eu sei de mina que tentou por causa desse tipo de atrocidade, mas que acabou não rolando por sorte. Mas não me surpreendo se dentro de pouco tempo do jeito que anda, alguma ativista exposta na internet não acabar conseguindo por fim à sua vida. Por que estamos nos apropriando duma ferramenta de feminicidio masculino, eles criaram isso, eles criaram o ‘porn revenge’ eles nos ensinaram como expôr mulheres online. Isso se chama violência virtual, estamos sofrendo de outras mulheres. Essa ferramenta matou várias meninas. É motivada pela mesma coisa: a pessoa não aceita uma ruptura, atua sua raiva contra uma separação, contra uma diferença. E nem duvido que ainda haja feminista online que comemore, já que acho que tudo pra elas é virtualidade e a fantasia de resolver as coisas na base do assassinato tá podendo tornar o sonho em realidade, já que não conseguem fazer isso com homens, elas transferem a atuação dessa fantasia para mulheres já que é mais fácil.

 
 

eu lenbrei, introdução da Mackinnon no livro Hacia una teoria feminista del Estado, ela questiona sobre sua atuação no campo das leis, como advogada, sendo que o feminismo radical justamente recusa reformas. Daí ela fala que os movimentos atuam no sentido de tomar poder, que as leis podem fazer o que tem poder perder um pouco desse poder e promover uma distribuição. Mas é mais longo que isso a reflexão…

 
 

“Eu não tenho paciência pra gente que:
(1) mistura política com questões individuais.
(2) não sabe tratar de conflito em grupo de forma ética e humana. Não tem que estar falando da mina. Falar dessa mina não é feminismo. Se rola conflito com essa mina (1) facebook nunca foi lugar de se resolver conflito. (2) conflito se resolve com ética e humanidade (3) conflito não se resolve expondo alguém”

(fala duma amiga anarca que aliás nem está no facebook)

 
   

The virtual exhibition is a trend that has been gaining momentum over the last few years. Virtual exhibitions allow people to view digital content from a distance, without having to physically visit the venue. The idea behind virtual exhibitions is that people can view content from a distance, nyt mini crossword without having to interact with it. This allows people to engage with the content in a different way, without having to interact with it in person.